Não sei você, mas, apesar do meu radiante pessimismo, sempre acho que a gente pode encontrar uma boa surpresa em qualquer lugar. E boa surpresa pode ser uma coisa inesperada, um amigo que apareceu depois de muitos anos, um objeto bonito e velho que serve pra alguma coisa, uma pessoa disposta a conversar.
Conversar não está muito na moda hoje em dia, ainda mais quando é com algum desconhecido. Mas confesso que andar fora de moda é um talento meu.
Trabalhando em um shopping aqui de Ribeirão, sou obrigada a comer na praça de alimentação todos os dias e é por lá que sempre vi um senhorzinho sentado, desenhando, sozinho. Às vezes alguém presta atenção nele, na maioria das vezes isso não acontece. Terminei de almoçar e resolvi tomar um gole de coragem. (gente muito fechada precisa de coragem pra falar com os outros tanto quanto os diabéticos precisam de insulina).
- Boa tarde! O senhor pode fazer um retrato meu?
- Posso sim. Pra ficar feia eu cobro mais caro.
Já percebi que dali sairia algo de bom. Fui sentando.
- Faz tempo que o senhor vem desenhar aqui? Quanto é que o senhor cobra pra fazer esses retratos?
- Isso aqui é o meu passatempo, mocinha. Há três anos, desde que minha esposa morreu, venho aqui todos os dias. Sabe quanto tempo ficamos casados? 63 anos.
- E o senhor mora por aqui?
- Numa casinha aqui perto. Pequeninha, pequenininha.
Nessas horas ele já tava rabiscando meu nariz e eu, explicavelmente, com uma puta vontade de chorar.
- Você tem irmãos?
- Tenho. Um mais novo. Ele desenha muito bem também. Faz arquitetura. Quer largar pra fazer medicina.
- Ah, não deixe não. Medicina é muito triste. Tem que cuidar de arte, essa é a parte boa da vida.
- E o senhor mora aqui faz tempo? Onde o senhor trabalhava?
- Morava em São Paulo. Fui desenhista a vida toda. Trabalhei no departamento de segurança do Estado. Faz uns 30 e poucos anos.
- O senhor fazia retratos-falados?
- Sim. Só de criminoso. Eu desenhava bandido. Iam as vítimas lá e a gente mostrava uns narizes, uns olhos, umas bocas e ia perguntando: 'parece com esse?'. E eu ia desenhando o bandido.
Havia muito anos que eu não me afligia com gente devagar. Pra mim, eu estava sempre perdendo tempo. Ele desenhava tão devagar enquanto proseava que era impossível não pensar em quanta babaquice permeia a minha pressa diária. Eu vivo com pressa. Ele não.
Ele disse que tem muitos quadros, esculturas e desenhos em sua casa, mas que por causa da idade não consegue mais fazer tantas coisas.
- Você sabe quanto tempo demorou pra Monalisa ficar pronta?
- Não, sei não.
- Pergunte pro seu irmão. Ele sabe.
- Vou perg...
- 20 anos. Leonardo Da Vinci demorou 20 anos pra fazer aquela expressão misteriosa. Você gosta de poesia?
- Um pouco, sim.
E foram 3 poesias declamadas ali, na praça de alimentação do shopping. Uma delas, eu lembro, era do Noel Rosa. Meu nariz foi ficando vermelho e o coração estrangulado.
- Noel Rosa era um poeta. Antigamente se fazia música com as poesias. Gosto muito de músicas semi-clássicas.
Dei risada porque 'semi-clássica' era uma expressão nova. Vou adotar. E nessa hora um mundaréu de gente começou a rodear a mesa em que estávamos. Ele parecia em outra dimensão e não se importou com as pessoas. Me perguntou o que eu fazia da vida e me perguntou se eu nunca quis escrever um livro. Contou que tem um fusca e mora sozinho. Pra ele, todo velho deveria ter um fusca.
- E não é ruim morar sozinho?
- É péssimo.
Ele terminou meu retrato e me deu. Me perguntou se eu não faria um retrato dele, porque não tinha nenhum. Falou que eu tinha cara de desenhista e mesmo eu dizendo que, apesar de gostar de desenhar eu não sabia, ele me deu as folhas e o lápis. Eu pensei que essa então seria minha aventura da semana: desenhar um desenhista na praça de alimentação do shopping. Desenhei de brincadeira e ele se divertiu.
- Me desenhou magrinho. É uma caricatura, não é? Eu perdi 7 quilos esses meses.
- E quantos anos o senhor tem?
- Eu sou velhinho. Bem velhinho.
E uma moça morena e grandona que estava ali do lado, olhando, ficou com os olhos cheios d'água.
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desenhando meu retrato e com o retrato que desenhei pra ele.
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