quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pé de Gato

Achei hoje um livro infantil do Pedro Bandeira que eu ganhei de presente há exatos 20 anos. Um poema pequeno, como deveriam ser os dias nublados. Simples, como as coisas que morrem um dia. Pé de Gato Pedro Bandeira Ficou doente o meu gato: miou, miou. Deram xarope de leite e ele só piorou orou, orou. "Ele está velho..." disseram. "A sua hora chegou". E o meu gato de fato morreu como morre um passarinho. Coloquei ele na caixa do meu sapato novinho. Vou enterrar no jardim. Miau... Cadê o gato? Está lá na caixa de sapato. E se eu chorar um pouquinho, meu choro vai chorar sobre o gatinho. Com o tempo e mais uma regadinha, talvez no jardim venha a nascer um pé de gato ou de jasmim. E quando o vento chegar, pra sacudir a folhagem, o meu jasmim vai miar.

sábado, janeiro 20, 2007

Patrimônio cultural

Engraçado. Tava lembrando de uma exposição que fica lá na faculdade onde estudei e trabalhei. O artista (que por sinal é muito interessante, não ele, mas as obras) pegou todas as portas de um antigo edifício da cidade que já foi demolido, fez umas intervenções legais e as pendurou no corredor da faculdade. E o mais bacana é que ficou incrível! Aquele monte de portas (inclusive duas cabines de elevador), com suas escritas praticamente rupestres produzidas ao longo de uns 100 anos, são coisas realmente divertidas de se ver.
Por coinscidência, li hoje uma crônica sobre banheiros masculinos e seus infinitos “Rose, te amo, Roberson”, “Timão êô”, “100% Periferia” e o simpático “Caguei Aqui”. É engraçado mesmo, porque nas portas lá da exposição também tinham coisas parecidas.
Mas, apesar de eu ter entrado pouco em banheiros masculinos (ah, por favor, quem nunca fez isso na escola?), acredito que nenhum estudo antropológico encontre mais variedade de material do que em um banheiro feminino. Seja em boteco, escola, faculdade, restaurante, rodoviária, boate, sempre tem coisas que fazem qualquer dor de barriga passar na hora e deixam o Marquês de Sade na sola do chinelo. São verdadeiros confissionários onde a mulhererada tem toda a liberdade de expressão e podem soltar suas angústias e desejos mais esdrúxulos. As portas, por alguns minutos, se transformam em psiquiatras e ouvem e registram as coisas mais estranhas, aliviando a visitante de todo o estresse que vinha tomando conta da sua vida. É que agora existem os blogs, mas imagine só que há pouco tempo atrás a gente só podia confessar certas coisas pro psicólogo, pro padre, pro diário de papel ou pra porta do banheiro mesmo. Hoje, os psicólogos cobram o olho da cara, os padres não são levados a sério por ninguém e os diários do passado já não têm mais graça nenhuma. Quem sobrou foram as portas do banheiro público. E quem nunca ficou lendo a porta enquanto a bexiga se livrava de explodir?
Desabafos do tipo “Marcela da fisioterapia é uma biscate”, “Quero chupar uma b***** bem gostosa”, “Marquim, te amo demais”, “Meu namorado me trocou por uma vagabunda, o que eu faço agora?”. A respeito desse último caso, muitas vezes são desenvolvidos verdadeiros chats, praticamente uma terapia grupal para dor de cotovelo, onde a pergunta era respondida com complacentes “já passei por isso, mas fica fria um dia ele volta”, ou um “homem é assim mesmo, por isso só gosto de b*****”, ou até mesmo “esquece ele, dá pra mim”. Insisto que essa seja uma coisa que deva ser estudada por antropólogos, sociólogos e, porque não, pela Dona Maria que faz a faxina. Se eu fosse ela, começaria a tirar foto das portas, escreveria um livro e ficaria milionária, pois ia vender horrores.
E essas coisas chamam tanto a atenção (óbvio, além de interessantes, ficam na sua cara enquanto você dá uma mijadinha), que até criaram uma mídia alternativa para esse “veículo”. Publicidade pra banheiro. Uma tal de WC Mídia, cujo dono foi bastante astuto. Agora, ao invés de ler sobre a vida alheia, poderemos conhecer o último lançamento da Coca-Cola, do Vinagre Castelo, dos Fogos Xingu, da Cobertores Parahiba ou o novo tamanho do OB.
Portas de banheiro deveriam ser conservadas e tombadas pelo Condephat e ser integradas ao patrimônio cultural brasileiro. Quando a civilização for exterminada, os alienígenas que chegarem por aqui poderão conhecer como foram os humanos em sua essência.



quarta-feira, janeiro 17, 2007

Antes da extrema unção...

“Então vou indo porque tenho que fazer a janta do meu marido”. Foi assim que uma amiga minha se despediu de mim por esses dias. Fiquei parada na frente dela e essa última frase começou a martelar na minha cabeça, ficando o verbo transitivo junto com o objeto direto “fazer a janta do meu marido... fazer a janta do meu marido”. Esse fantasma gramatical ainda persegue a minha memória e não há o que me faça esquecer. Primeiro, ouvir isso de uma amiga que te conhece desde os 14 anos e que, de certa forma, participou de um grande período da sua vida, é, no mínimo, broxante. Fui analisar o portfólio dela. Ela fez crisma comigo. Minha mãe me obrigou a fazer esse curso patético por um ano, até que finalmente me puseram a plaquinha de filha de deus no pescoço. Essa minha amiga me repreendeu amargamente no meio do importantíssimo sacramento porque eu era a única que estava de mini saia branca e coturno. Era uma daquelas adolescentes cuja única preocupação era o sexo oposto. “Ai, fulano se declarou pra mim e o ciclano me mandou uma carta. O que eu devo fazer, amiga?”. Aos 20 anos fez a coisa que eu considero a mais miserável de todas: ficou noiva. E de um carinha que chutou a bunda dela dois meses antes do casamento. Mas certamente isso não é obstáculo para as legítimas devotas de Santo Antônio, que objetivam veementemente o casamento e a ele por si só, quem vai ser o marido pouco importa. Passado o trauma de desmarcar a igreja, cancelar a festa, explicar para todos os convidados que o enlace tinha sido abalado, eis que surge alguém na vida da fofa que fez despertar seus instintos casamenteiros. Foi pra ele que a moça foi preparar a janta outro dia. Antes de se casar, ela juntou as escovas de dente com o moço e experimentou o tesão de ser uma dona de casa. A família não ajudou muito para que ela seguisse um caminho mais iluminado. A mãe queria ver a filha casada a qualquer custo, o pai de olho nos gastos que seriam reduzidos e o irmão, um daqueles insuportáveis estudantes de direito cuja frase preferida é “você sabe com quem está falando? Posso te processar a qualquer momento”. Além disso, é um ex-gordo cujos traumas da infância desaguaram em um corpo desproporcional, que ainda não conseguiu disfarçar o passado roliço. Bom, e então a minha amiga casou de papel passado há alguns meses, sendo ela da mesma idade que eu. E se formou em Publicidade, o que não tem nada ver com ela ser, de fato, uma publicitária. Vive me mandando currículo e me pedindo pra arrumar um trabalho pra ela. “Não precisa ser na minha área”. Disse que precisa achar um emprego qualquer que ofereça um bom salário, afinal de contas, ela tem um marido pra cuidar. Talvez eu poderia sugerir um emprego pra ela. Talvez se desse bem como telemarketing de cartão de crédito, aeromoça, secretária de dentista, assistente paroquial, caixa de banco, contadora, patinadora do Carrefour, ou qualquer outra coisa que não seja necessário usar a criatividade. Enfim, ela se casou e vai preparar a janta do marido. Pelo amor de deus, quem é que faz janta hoje em dia? Quem? Apesar de tudo, a amiga tá lá, toda feliz, lavando cueca, dobrando camisas sociais, fazendo almoço, janta, café da manhã e é claro, dando uma pausa para assistir O Profeta. Sinceramente, nesse caso o único que merece compaixão é santo Antônio. Coitado.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Por que não me comporto direito? - Parte 1

*Casos (su) reais*

Uma vez resolvi trabalhar para uma rádio aqui em Ribeirão. Eu sempre odiei rádio, mas resolvi tentar mesmo assim porque a grana compensava e porque ninguém ouve mais rádio mesmo. Assim, eu não ia correr o risco de ouvir “ahhhhh que chique, te ouvi no rádio ontem”. No auge hormonal dos 20 anos, a gente topa qualquer negócio mesmo. Mas a missão da vez era fazer a cobertura do Carnaval [super legal] nos clubes da cidade [nossa que bacana]. Eis que me preparei psicologicamente e fui. Diante do lamúrio carnavalesco, que dura intermináveis quatro dias, descobri onde eu teria que ir naquele último dia de festa: o Clube dos Servidores Municipais de Ribeirão Preto. - “Mas eu não sei onde é isso aqui”. - “Ah, se vira, porque a produção já tá pagando a gasolina” Ótimo. Tinha que estar lá às 16h00 em ponto naquele sábado com o sol rachando. - “Você vai pra lá e a gente te liga às 16h em ponto para entrar ao vivo do clube, ok?” - “Formidável”. Fui pra casa ao meio dia e tentei descobrir onde era esse insólito lugar. Não era perto de nada habitado, ninguém conhecia aquele bairro e eu tinha que estar lá de qualquer jeito, e às 16h00. A solução? Apelar para a mão generosa e benevolente dos amigos. - “Gustavo, pelo amor de deus, preciso ir no lugar assim assado, vou entrar ao vivo pra rádio, tem jeito de ir comigo? Você sabe que eu me perco até na esquina da minha casa” - “Rá. É praquela rádio ridícula que ninguém ouve? Passa daqui que eu e sua prima estamos te esperando. Essa vai ser a balada do ano”. - “Ótimo” Era 15h00 e eu já estava tirando meu humilde corsa azul da garagem quando toca o telefone. - “Ô Fran, que c ta fazendo?” Era a Annike, colega de faculdade, que estava sofrendo de carência afetiva depois de ter terminado o namoro de cinco anos com um cara que pesava 120 quilos. - “Estou indo no Clube dos Servidores Municipais.” - “Ah to na rua, já to chegando aí na sua casa, vou com você e te acompanho de carro” Foi que ela veio e fomos em caravana para a casa do Gustavo. - “Vai meu, anda logo” Acomodaram-se ele e a minha prima Carolina, com a Annike logo atrás e partimos em busca daquele tesouro da zona oeste de Ribeirão. Já eram 15h45 e nós estávamos perdidos na estrada indo pra Brodówski. - “Cara, eu não sei onde fica essa porra, alguém me ajuda pelo amor de deus!” - “Peraí meu, olha aí no mapa do seu pai”, disse calmamente a minha prima. - "Tá dizendo que o bairro é do outro lado da pista, ô doente mental”. Ok. Fomos para o outro lado da pista e achamos um posto de gasolina abandonado, onde eu parei, olhei pra todo mundo e falei “caralho”. Não tínhamos muita idéia de onde estávamos, mas sabia que não tinha nenhum Clube dos Servidores por ali. Não seria possível que alguém construa um clube no meio do canavial. Faltavam cinco pras quatro quando eu pedi pra Annike, que tava no carro do lado do meu, ligar o rádio dela na freqüência certa do programa para o qual eu estava tentando trabalhar. Rrrrrrommzziiinnnnnnuuuummmmiiiiiiiiii... - “Ponto! É aí mesmo” E o locutor tava lá empolgadíssimo. - “Ééééééééé, amigos ouvintes, o carnaval em Ribeirão está fervendo! ! !” - “Ai porra, ele vai me chamar e eu não faço nem idéia de onde eu to! Toca o meu celular: - “Francine, 10 segundos para entrar no ar, ok?” - “...” - “Queridos ouvintes, vamos saber agora como anda a festa lá no Clube dos Servidores Municipais.” - “Gente, faz aí um barulho de gente conversando, rápido.”, solicitei delicadamente, tapando o telefone com a mão. - “Estamos ao vivo com a Francine que está lá no Clube dos Servidores Municipais e que vai falar pra gente como é que tá a animação por lá. E aí Francine! ! ! ! O Clube já tá lotado ou o clima ainda tá esquentando??” [ouve-se uns ruídos de conversa desconexa misturados com umas frases do tipo “peraí, o que é que eu falo?”] - “Pois é FULANO, aqui o pessoal ainda tá chegando, a banda ainda está arrumando os equipamentos, mas parece que a tarde tá prometendo ser a mais agitada da cidade! ! !.” - “AAAAAAhhh, que maravilha! E o Carlos, presidente do Clube, tá aí do seu lado?? Podemos dar uma palavrinha com ele?” - “Ah-ah-ah, o Carlos??? Não não FULANO, puxa vida, ele acabou de ligar dizendo que vai atrasar um pouquinho, mas daqui a pouco ele já deve estar por aqui. Vou ficando por aqui e daqui a pouco eu volto com mais novidades” - “Então tá ótimo, voltamos daqui a meia hora lá pro Clube dos Servidores com a Francine, nessa cobertura completa do Carnaval de Ribeirão Pretoooo! ! ! !” - “Tu-tu-tu-tu-tu-tu” Por um instante fez-se silêncio absoluto no carro. Depois um olhou pra cara do outro e quase tivemos uma síncope de tanto rir. - “Gente, agora é sério, a gente precisa achar essa porra, porque vão me ligar pra entrar ao vivo outra vez, e agora eu vou precisar entrevistar o cara”. Rodamos mais uns 20 minutos e tcharããããmmm, o clube desponta no horizonte, encardido, e com um enxame de crianças usando aquelas bóias de braço que parecem medidores de pressão arterial. Dessa vez, entrei ao vivo, entrevistei o presidente do Clube e correu tudo dentro dos conformes. Ainda de sobra, eu e meus amigos comemos e bebemos a tarde inteira, ao som de uma banda chamada Tony e Cia [lembrando que o vocalista ofereceu “Eguinha pocotó” só pra mim] e com todas as regalias que a imprensa tem direito. Amigos são pra essas ocasiões mesmo... mas em rádio, eu jurei que não trabalho nunca mais.

EU QUERO! EU QUERO! EU QUERO!

Sensual, excêntrico, vanguardista. O melhor da rapadura tá nessa obra aqui.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

As pessoas criativas sempre sofrem

Seja com a falta de credibilidade, de compreensão ou até mesmo com a negação do seu trabalho. Eis que esse mundo não é o bastante para elas.... Professor é suspenso por pintar com a bunda Um professor de educação artística foi suspenso de escola depois que seu chefe descobriu que ele usava uma técnica não usual para pintar. Stephen Murmer usa o traseiro para fazer suas obras. No vídeo, Murmer coloca suas nádegas na tinta e depois as coloca na tela. Sob o pseudônimo de Stan Murmer, ele se disfarça usando óculos e bigode ao estilo Groucho Marx. Suas pinturas, que normalmente trazem flores e borboletas, estão à venda de 250 libras a 450 libras. Ao descobrirem o vídeo que ele disponibilizou no You Tube, que mostra a produção de uma das obras, autoridades da Monacan High School, no condado de Chesterfield, no Estado da Virginia, colocaram o professor em férias remuneradas. Um porta-voz da escola explicou que os professores devem dar exemplo para os estudantes. Acessem aí o site do cara, www.buttprintart.com. Abaixo, algumas obras dele. *Não seria mais fácil pintar com o pinto? Digo, é anatomicamente mais prudente.*

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Dakota

Eu sempre odiei crianças prodígios, geralmente chatas, forçadas até o osso e inconvenientes até o perispírito. Mas há uma exceção que não dá pra negar. Dakota Fanning tem talento pra mais umas 67 encarnações. Adoro assisir Taken por causa dela, amiga dos homenzinhos verdes. Fora o I am Sam (um dos meus favorítos de todos os tempos), que me fez chorar até morrer desidratada. E agora ela deu uma rasteira nas modelos e virou musa de uma campanha de moda. De quebra é a capa da Vanitty Fair de janeiro. Eu sempre disse que ela era uma miniatura da Umma Turman. E ninguém me dava crédito. Mas reparem, é a cara de uma, focinho da outra! As fotos aqui são de Karl Lagerfeld, para a campanha de Marc Jacobs. E ela só tem 12 anos...

terça-feira, janeiro 02, 2007

Coisade gente simples...

Lá na roça tem dessas coisas. Ninguém é chamado pelo nome, todo mundo tem algum apelido bissílabo que atravessa as gerações e até tornam esquecidas as certidões de nascimento. Tem o Neca, a Côca, a Nega, o Bitin, o Totó, o Girso... acho que são conseqüências do dialeto mineiro, que consiste em economizar a fala, cortando as palavras pela metade. Na casa do meu avô tem a tia Côca, irmã dele. Não tem marido nem filhos, mas é ela quem mantém a família viva, porque sabe de cor os horários e os remédios de cada um dos três irmãos. É a única que não fuma e que não bebe, por isso, a única que não é doente. Cuidar dos outros foi a recompensa que teve por levar uma vida correta. “Só tem eu aqui pra cuidar deles”, ela fala. Além disso, é também professora de catecismo na capela da área rural e é somente pela fé que caminha todos os sábados por quatro quilômetros para dar aulas pros pequenos. E o detalhe, carregando em cada braço 20 litros de água da sua própria casa. “Eles sentem sede”, justifica, “e lá não tem água”. Apesar de tudo isso, ela ainda fica praticamente o resto do dia no fogão de lenha, cozinhando, fazendo café e, a cada um que chega, sai uma nova fornada de pão de queijo. É assim, lá todo mundo é da família, não importando se os laços são de sangue ou de amizade. E todos são recebidos da mesma maneira, com pão de queijo e café. Parece que lá tudo tem um gosto especial, de atenção, de aconchego, de coisas que já esquecemos. E ela conta 73 anos, carrega inúmeras rugas e muita história. Me senti envergonhada várias vezes ao conversar com ela, porque a simplicidade com que ela vive é invejável e a bondade que guarda no coração assusta. Enquanto isso, passamos o tempo todo tentando saber, de fato, o que é amar. Talvez seja algo como oferecer seus dias ao outro, para que entre e fique à vontade. Coisa de gente simples. Aqui de vez em quando abrimos os braços, meio timidamente, mas de nada adianta quando o outro vem com os braços fechados. Lá, todos abrem os braços e a porta das suas casas, porque não é possível amar de braços ou portas fechadas.