
Não sei se alguém já reparou, mas em todos os cantos do mundo há pessoas querendo "fazer algo novo", "inovar", "ousar", enfim, querem a todo custo levar o rótulo de foda do ano. E o mais engraçado é que quanto mais querem ousar, mais a coisa se repete.
Outro dia mesmo eu estava sentada num bar com duas amigas, comendo uma saudável salada de frutas, quando entra em cena uma banda chamada Dona Benta que, aliás, é muito legal e eu recomendo. O encanto se desfez quando, depois de algumas músicas - e isso incluía Tim Maia, Farofa Carioca, Funk Como Le Gusta -, o vocalista solta o típico clichê egocêntrico que atinge todo santo músico: "E aí galera! Somos a banda Dona Benta e a nossa proposta é fazer um som bem diferente, puxamos pro lado do funk, do soul, a gente curte essa praia, esse é um som que ninguém costuma ouvir por aí".
Bom... aí já me deu um revertério estomacal porque esse é o tipo de coisa que eu ouço desde os meus 17 anos, quando comecei a tocar em bandas e a conhecer os músicos daqui. Depois, vejo no programa do Gugu "Os Virgens" - uma banda de véios de guerra aqui em Ribeirão - e que resolveram investir numa proposta super inovadora: imitar os Mamonas Assassinas. Imagine que bacana: os caras já tem lá seus 30, quase 40 anos, são casados, com filhos, e cantam músicas chucras num programa escroto, vestidos como retardados mentais. Senti muita vergonha alheia.
Quer um outro exemplo?

Existe um programa esportivo na Band que

passa no final da tarde. Tem um cenário legal e você até fica com vontade de assistir, até que a apresentadora abre a boca. E quem é? Luise Altenhofen (que porra de nome). Ela gagueja, tem uma voz irritante, não sabe muito bem o que está falando, maaaaasss... é linda, é gostosa, é famosa, é loira, é surfixxxta. Ao lado dela, um moço chamado Guilherme Arruda, que fica parecendo um vaso de samambaia no programa, apesar de conseguir se sair melhor que a companheira. Inovação no jornalismo esportivo? Claro, senhores, e também um belo retrocesso. E isso acontece enquanto o monstrengo do Jorge Kajuru se fode na vida por tentar fazer, há décadas, um jornalismo esportivo decente, sem rabo preso - isso sim é uma coisa nova. Um detalhe: há dois anos, quando Kajuru escrevia pra Folha, ele denunciou lavagem de dinheiro no Curíntia. Foi processado e ninguém botou fé no que o maluco dizia. Hoje, vemos Luise ajeitando suas madeixas enquanto o programa não entra no ar: "Mas xenti, eu achei que o Dualib era senador, tipo assim, um amigo do Renan?". É, realmente.
Enfim, gente que acha que tá abafando tem de monte, tipo gente querendo inovar o visual cortando o cabelo igual o da Priscila Fantin (nossa, esse cabelinho fica ridículo em qualquer ser, que não ela) ou fazendo as unhas como da Giovana Antonelli (meu, vai ser brega assim no inferno).
As pessoas acreditam que estão fazendo coisas novas. No país, milhões de revistas, programas de televisão, salões de cabeleireiro, agências de publicidades surgem a todo momento prometendo uma proposta inovadora, termo que me dá uma ziquizira quando ouço.
No final das contas, todo mundo quer sair da massa, mas acaba-se criando um outro tipo de massa, numa balança onde se pesam os ignorantes e os antenados, sendo que as duas partes sofrem da mesma alienação crônica.
Pra mim, novidade é o Tom Zé tocando serrote e folha de jornal nos anos 60. É o Roberto Jefferson caguetando os coleguinhas, mesmo sendo ele um belo picareta. É fazer uma propaganda com bebês tomando leite vestidos de bichinhos. É chamar o Alberto Dualib de velho safado e o Ricardo Teixeira de cachaceiro em um programa ao vivo. É fazer um seriado mexicano sobre um cara que mora num barril, com poucos atores, cenários horríveis e nenhuma grana nos anos 70 e ser um fenômeno de audiência até hoje. É construir uma biblioteca para crianças carentes num avião abandonado no Recife. Enfim, são coisas que pessoas únicas tiveram a audácia de fazer. E fizeram com verdade, entusiasmo, originalidade, o que as permite retrucar a Renato Russo com toda razão: não Renato, não é mais do mesmo.