quinta-feira, janeiro 31, 2008

Ao verde louro desta flâmula...Argh!

Aos meninos do Designers Justiceiros já vou logo pedindo desculpas. Mas tenho que citar aqui o que já foi anunciado no blog delicioso deles.
Um professor desocupado de design aqui da Nova Zelândia (as pessoas aqui são extremamente desocupadas) resolveu fazer um ranking das bandeiras mais feias e bonitas do mundo, segundo os seus conceitos de cores e design.
Dei uma olhada no ranking, que está na página do professor, e me parece bem interessante. Segundo ele, a nossa é a mais feia bandeira de um país independente. Alguém quer discutir?
As análises do cara são bem interessantes e pertinentes. Além de tudo eu conheci países que eu nem sabia que existiam!
Coloquei aqui embaixo duas das mais bonitas e duas das mais bizarras bandeiras, com direito a observações do prófe.
The moust biuriful of de uord is...


Gâmbia. "Ótimo design e escolha das cores"


Japão. "Clássica e simples. No ponto"




Agora, as campeãs da chochação...




Ilhas Marianas. "Parece que foi feita com desenhos do clip-art".






Grenada. "O que é essa coisa à esquerda?"

O mais curioso é que o professor (que também diz que é músico e desenvolvedor de softwares)deixou um aviso na página dele, dizendo que a pesquisa pode ferir e causar ofensa às pessoas e vai logo avisando que o humor é sarcástico e que pode ferir o seu ego patriótico. Haha. Gostei!

Apesar de achar que a Nova Zelândia está para o design assim como o Alexandre Frota está para a física quântica, eu, particularmente, adorei a pesquisa, bem interessante mesmo. Se a bandeira brasileira é feia, eu sou obrigada a concordar.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Variando o tema

Como ninguém é obrigado a ler sobre minhas indagações sentimentais, resolvi variar o tema. Ufa. Bom pra mim e bom proceis tamém.

Primeira coisa:
Comprei a Rolling Stone australiana desse mês, uma que tem o Led Zeppelin na capa.
Mas a coisa que me fez abrir um sorrisão foram as 8 páginas inteiramente dedicadas a nada menos que:
Sebastião Salgado. *cai dura no chão*



Clique aqui e veja a reportagem The Hidden Tribes of Amazonia e as fotos deslumbrantes - como sempre.
Fiquei emocionada e saí correndo pra mostrar pra minha flatmate. :o)
Como diz el nene... "me encanta, me encanta..."


Segunda coisa:
Descobri algo interessante (ó!).
Se você está na Austrália ou na Nova Zelandia, visite essa loja on line onde você pode escolher uma camiseta com a estampa do ticket do primeiro ou mais importante show da sua vida. É interessante, mas achei meio carinho.

Vai lá na ticket on yourself

bom, é isso.
(desculpe-me pela sem graceza... é que eu me sinto melhor falando de relacionamentos perturbadores. Acho que preciso me tratar...)

sexta-feira, janeiro 25, 2008

O Eterno Retorno



Ela é a pessoa mais previsível que eu conheço. Sempre age da mesma maneira quando termina um relacionamento: primeiro arranha as paredes do quarto e depois junta tudo o que era deles dois em cima da cama, olha, chora até os olhinhos sumirem e, como se nada daquilo tivesse importância, enfia tudo num saco de supermercado. Dependendo da história que acabou, o saco era maior ou menor. Depois, num ritual-despacho, atira tudo pela janela do carro.
Pode ser que ela já esteja até entre os mais procurados da polícia ambiental por ser uma das maiores poluidoras de rios que já se teve notícia.
Dessa última vez estava disposta a poluir não um rio, mas o oceano pacífico. Chegou à beira da água, olhou o saco (esse não era tão grande, mas era bem pesado) e sentiu pena. Ora dela mesma, ora daquelas coisas, todas tão bacanas. Poxa, ela gostava tanto de Immaculate e daquele anel e também do livro que nem tinha começado a ler. Livro? Nem pensar que ia pro mar, desperdício! Que culpa tinham os pobrezinhos? Merecia o Michael Jackson cantar para os tubarões? Ná. Lembrou também que desde criança consegue sentir pena de objetos. Vai entender.
Com um sorriso de alívio, voltou pra casa, mas não teve coragem de levar o saco de volta para o seu quarto, aí seria demais pra ela. A solução? O saco passou a morar dentro do seu Ford 89. Nem tão próximo, nem tão longe. Rá!
O mais engraçado foi que, ao mesmo tempo em que a cena se repetia - com alguns takes inéditos como esse de voltar pra casa com o saco na mão - outro filme começava bem diante dos seus olhinhos agora nem tão inchados e ela se sentiu com aquela felicidade besta, mesmo sabendo que não era felicidade porra nenhuma. Era a sensação que ela conhecia há muito tempo e que lhe fazia bem: as borboletas no estômago.
Sempre assim.
Não que já na primeira cena do filme ela tivesse imaginado filhos loirinhos e de olhos azuis, mas veio aquela pergunta idiota novamente: "será?". Ela sempre pensa coisas imbecis desse tipo e nessas ocasiões mas nunca conta pra ninguém. E não é a única. É mais uma mulherzinha qualquer, de fato.
Depois de pensar em filosofia, teorias e lembrar do que dizia Freud, Nietzsche (aquele velho pessimista) e tantos outros que se arriscaram a falar da vida, percebeu que é tudo bem mais simples, assim como sempre achou que fosse. Sim, porque, apesar de ainda estar se acostumando com um par de mãos diferentes, assumiu a si mesma que adora o jeito com que ele lhe embaraça os cabelos e que acha graça quando não consegue entender o que ele fala. No caso, não foram necessárias muitas palavras. E ela se importou? Não. Não ligou para as palavras pela primeira vez na vida.
"Ele tem os olhos tão sinceros". Bah. O outro também tinha e...
"Ele é tão lindo". Que ótimo.
"Ele tem um p... ". Melhor ainda.
"Ele não sabe quem é a Joss Stone". Hahaha! Me mata!
Resolveu então colocar uma música. Uma que fosse só dela e de mais ninguém, que não representasse nada além de sua própria vontade. Algo que nenhum daqueles fantasmas achasse bom ou ruim. Músicas que não trouxessem ninguém de volta ou sensações de pretérito imperfeito. Se sentiu bem ouvindo o Trio Parada Dura cantando "As Andorinhas Voltaram".
Ficou com medo e desejou nunca mais ganhar nenhum presente, nem uma carta, nem aparecer em fotos ou vídeos ou qualquer que seja a mídia. Odiou a idéia de imortalizar os momentos porque não queria mais ter que poluir o mundo, não queria mais usar sacos plásticos para apagar a sua história.
Dormiu. Acordou com o celular apitando, era uma mensagem. Levantou correndo para arrumar o quarto e a casa, ele estava chegando. Se enfiou no pijama - porque ela acha sexy abrir a porta de pijama - e foi recebê-lo. Sorriu e, depois de ter os cabelos embaraçados daquele jeito que gosta, perguntou superficialmente como havia sido o dia. Enquanto ele falava, ela pensou em Nietzsche novamente e, como se ele tivesse desaparecido com suas questões verdadeiramente doloridas, pensou que não seria má idéia ter filhos bilíngues. E de olhos azuis.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Armadura


- Ah! Que bom que você veio! Nem acredito!
- É né! Que bom!
- Quer uma cerveja?
- Sim, da grande.
- Mas e aí, o que me conta?
- Nada de novo, e você?
- Nossa, hoje passei o dia todo ajudando um amigo meu com a mudan...
- Olha, não precisamos prolongar isso, ok?
- Ahn?
- Eu sei que você só quer me comer.
- Mas eu só estava dizen...
- Não tem porquê você começar a me falar do seu dia se eu nem te conheço direito.
- Mas foi você quem pergunt...
- Eu perguntei porque eu quis ser educada. Agora não precisamos fingir que estamos interessados um na vida do outro, certo?
- Eu só queria saber como você ....
- Olha é sempre assim, você não é diferente e eu sei que você vai ficar falando um monte de coisa que pra mim não vai ter a menor importância e vice-versa.
- Mas eu...
- E outra, não tem porque você se interessar por mim. Você não sabe nem que a minha combinação de cores preferida é verde-limão com azul escuro.
- Eu gosto de vermel...
- Você também nem sabe que eu tenho um cisto na cabeça e se eu te contar a história você vai sair correndo.
- Cisto?
- Sim, e você também nem sabe que eu tenho compulsão por chocolate e que eu resolvo todos os meus problemas enrolada num edredon.
- Eu só queria sab...
- Sabe, eu acho tudo isso uma grande bobagem. Porque mesmo que você me ache bacana, você tá é loco pra me comer. E sabe, eu não costumo dar na primeira vez.
- Eu nem disse nada sobre iss...
- Olha, aliás, já passa da meia noite, estou com sono ok? Vou pra minha casa.
- Eu queria só te dizer que eu gostei de você de verd...
- Ai, tá bom, tá bom. Já entendi. Outro dia tá?
- Tá. Tchau.
- Rendéidéindéidééééééin... Rendéidéindéidééééééin...Rendéidéindéidééééééin...
- Acho que o seu carro não quer funci....
- Que porra! Que porra!
- Nós moramos perto, posso te dar uma caro...
- Olha, tudo bem, mas pára com essa coisa de querer ser legal tá?
- Ta. A minha kombi tá logo ali. Vem.
- Kombi? Jura que você tem uma Kombi? Não acredito!
- Sim! Já morei dentro dela por dois meses numa viagem que fiz pelo sul...
- Nossa! E que mais! Você deve ter adorado, lugares lindos! E numa kom...

Pimentão

Pode alguém desaprender a andar de bicicleta?
Se nunca andou, como vai saber andar agora?
Certas coisas, depois de um certo tempo, parecem inéditas.
Faz a gente ficar vermelha, com vontade de esconder a cabeça debaixo dos terra.
E aí? Passo-a-passo? Manual de instruções? Cartilha?
Alguém pode me emprestar um pouco de coragem ou então segurar a minha mão?


Dirty Man You're a dirty, dirty man And you gotta dirty mind You're a dirty, dirty man You and that other woman, you're 2 of a kind But you forgot 1 thing baby when you were doing me wrong That Im a good house keeper Im gonna take my broom and sweep All of the dirt out on the street You're a dirty, dirty man Oh in so many, so many dirty ways You're a dirty, dirty man And you've been hidding your little dirt all over this hip place I know you have Oh here's my chance baby to throw some mud in your face Coz Im a good house keeper Im gonna take my broom and sweep All of the dirt, yes I am, out on the street Oh, Im cleaning out my whole house Fast as I can Its time to make everything speak and span You're a dirty, ooh you're a dirty man You do me dirty for so many years, yes u did You're a dirty, dirty man, yes u are And Im tired of you and your woman and your dog too You're a dirty man You're a dirty man Now get outta my house Dont u never, never, never come back again Dont u never You're a dirty, dirty man And Im done with your dirty ways

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Zé Carioca, seu filho da puta

- Oi! - Oi. - Você é brasileira? - Sim. - Ah, que bacana! Sempre tive vontade de conhecer o Brasil... - Não me diga! - E, me responde uma coisa... - O que? - É verdade que no Brasil as pessoas ficam na rua dançando e cantando o tempo todo?? (silêncio...) - Só em fevereiro.

sábado, janeiro 19, 2008

Dois dólares

Há quem julgue meu atual trabalho como um servicinho enfadonho, chato e pesado demais para uma mulher. Afinal de contas, ver a filha se tornar uma vendedora de frutas não era exatamente o maior sonho da minha mãe, quanto mais vê-la carregando sozinha um caminhão de melancias, milhos, nectarinas e toda sorte de frutas. Enfim, foi o que cruzou o meu caminho e sim, carrego quilos e quilos de frutas no braço todo santo dia. Mas, apesar de já ter mudado de cor de tantos hematomas pelo corpo, eu gosto de fazer isso. Estaciono minha van debaixo de uma grande árvore à beira do mar e fico lá com os meus quilos por três dólares. Me dá dinheiro. Muito mais do que ser jornalista no Brasil. Eis que ontém chegou uma velhinha e pegou um quilo de cada coisa, dizendo que os netos estavam de férias na sua casa e que eles estavam famintos. Logo que a simpática senhora abriu a carteira para me pagar, notei que uma moeda havia caído na grama, deixando no meio do verde o brilho dourado-feio que os dois dólares neozelandeses têm. Ao mesmo tempo em que eu ia me abaixar para pegá-lo e devolver à dona, um braço sobrenatural me segurou, travando também a minha língua. Então eu não disse nada, recebi o dinheiro pela compra e esperei ela se afastar. Sem que houvesse nenhum diálogo entre mim e a minha consciência, meti a moeda no bolso e, como se um pacto de silêncio tivesse sido travado ali, sob aquela árvore grande, sentei numa pedra. Senti fome e joguei uma melancia no chão, que, aos meus pés, se espatifou. Com a mesma falta de sensibilidade com que meti aquela moeda no bolso, comi a melancia. Como um moleque, sentada com as pernas abertas para que o suco que escorria dela não manchasse a minha bermuda e nem o meu allstar. Cuspindo longe as sementes e esperando o próximo cliente, me dei conta que a minha cabeça estava tão vazia quanto o coração. E então, limpando a boca com os braços, assim como fazem os caminhoneiros, os pedreiros e os outros machos de profissão, me senti canalha. Tão canalha quanto um homem.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

É difícil engolir este café da manhã, mesmo que ele seja simplesmente uma barra de cereal que eu empurro goela abaixo numa batalha que só quem é partido ao meio conhece. Os músculos da garganta forçam tudo pra fora, talvez porque o que está aqui dentro já é suficientemente grande. Acordei cedo. Já há algum tempo eu acordo antes do relógio gritar "sete horas, sete horas, sete horas". Antes, acordava com o corpo doendo de tanto trabalho, mas com um sorriso no rosto porque era chegada a hora de falar com você. Hoje o corpo já não dói - porque a tudo se acostuma - eu abro os olhos, sempre depois de algum sonho que eu desejaria que fosse realidade, e desejo me libertar daquela sensação de que ainda vou fazer o que eu fazia antes... É como os amputados, que sentem o membro fantasma. Não existe mais nada ali, mas eles ainda acreditam que a perna, ou o braço ainda estão ali, dependurados e saudáveis. E o membro, simplesmente por não exisitr mais, não executa os comandos do cérebro. Eu ainda acho que existe um coração.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Confessa, vai!

Atire a primeira pedra quem nunca assistiu por inteiro um programa desses tipo namoro na TV, torcendo pela formação de lindos casais, mesmo se roendo de tanta vergonha alheia. Pois é, eles pra mim são a maior boçalidade que pode exisitir quando o assunto é relacionamento.
Mas, lembrando de programas como esses, me recordei também de uma pergunta que se fazia a todos os candidatos, a mesma pergunta que talvez alguns analistas de RH fantasiados de psicólogos fazem durante as suas entrevistas de trabalho: Qual é o seu maior defeito?
E o mais engraçado é que TODAS as pessoas insistem em chamar de defeito suas características mais insosas e, para essa pergunta tão ameaçadora, pronta para destruir toda a sua reputação, já existem as respostas prontas, enlatadas em qualquer prateleira da nossa própria falta de vergonha na cara:

a) "Ah, eu sou muito ansioso"
b) "Eu sou muito ingênuo, acredito em qualquer coisa"
c) "Sou muito tímido e isso me atrapalha"
d) "Ah, eu sou mal humorado quando acordo"

Por favor, se vocês souberem de algum bofe que tenha essas terríveis e monstruosas obscuridades no seu lado B, me apresente.
Oras, então ninguém sabe o que significa "defeito"! Talvez eu consiga resumir tudo em uma frase bem simples: defeito é aquilo que você, em hipótese alguma, confessa.
Imagina você, que usou pela primeira vez o seu Victoria´s Secrets recém-comprado-para-ocasiões-especiais, acabou de conhecer aquele cara garboso, cheio de estilo e que parece ter mais do que 15 centímetros entre as pernas, e ele te pergunta qual é o seu maior defeito.
Entre as opções abaixo, qual você teria coragem em dizer?


a) "nossa, eu minto o tempo todo e nem me dou conta mais"
b) "eu escolho os homens pela conta bancária sim!",
c) "eu sou bem hipócrita, nunca ajo de acordo com o que eu digo aos outros",
d) "copio tudo dos outros, sou absolutamente sem personalidade"


Não. Mesmo que todo mundo tenha pelo menos duas ou mais dessas péssimas características, nunca nem jamais alguém confessou os seus verdadeiros defeitos.
Uma vez li a coluna da Soninha na Vida Simples e ela falou sobre que era uma invejosa de mão cheia. Que invejava as amigas pelos bens que elas tinham e que ela não podia ter, pelo marido das outras que ela não tinha, enfim, por um monte de coisas. Gostei. Achei digno.
E é engraçado como nós ficamos pasmos quando nos deparamos com o lado escuro do nosso planeta chamado personalidade. Nós não assumimos isso nem com farpas de madeira sob as unhas.
Defeitos não existem para ser assumidos, definitivamente, só nos mostram o tempo todo que nada é exatamente o que parecer ser. São como se fossem uma força maior, desconhecida, que fazem as pessoas se destruírem e se odiarem, ou, resumindo a ópera, simplesmente são como o mau hálito, ele estraga o ar dos outros, mas você mesmo já nem percebe.
Acho que preciso escovar os dentes mais vezes por dia.




"acredite em mim!"

terça-feira, janeiro 15, 2008

Alô, câmbio!

Ok pessoal.

O dramalhão mexicano acabou. Sem final feliz, mas finalmente e graças aos bons ventos, acabou. Mesmo estando só o farelo da rosca, tô aí mais uma vez pronta pra descabelar o palhaço com o blog que é o meu tão estimado xodó (leia-se válvula de escape).
E, como tudo na vida é motivo de piada, vamos ao que interessa. Que este ano possamos rir da desgraça alheia e que tudo seja alvo das nossas línguas afiadas (mas sempre sinceras).
Feliz ano novo minha gente! (quase idoso já)
O Mãe já Acabei está de volta. Em versão 2.0 diretamente do outro lado do mundo!

bjos a todos e...


Saúde!

sábado, janeiro 12, 2008

Para um suicida

Todos hão de concordar comigo que a morte mais dolorida para quem fica é o suicídio. Uma tentativa ingrata e egoísta de resolver seus problemas, cujo motor é uma mente doente, insana e sombria. Quando me disseram “ele morreu”, tudo parou. Por alguns instantes o sangue não circulou nas minhas veias e a minha alma abandonou o meu corpo, ficando só um vácuo, sem absolutamente nenhuma reação. E quando se está longe, como eu estou agora, a situação é ainda pior. Eu não pude ver você uma última vez e nem ganhar um abraço da minha família, dos meus amigos. Eu aguentei tudo absolutamente sozinha. E é estranho como a gente se perde de nós mesmos nessas horas. Eu passei a ter medo de tudo, das pessoas, dos bichos, das plantas, da terra e principalmente de mim mesma. É uma vontade louca de deixar de existir e de me tornar simplesmente um passarinho que não tem nada com que se preocupar nos seus poucos dias de vida. Eu poderia passar esses dias fazendo um ninho bem quentinho pra eu morrer ali em paz. E quem sabe, talvez, a gente poderia se encontrar, longe de todo esse holocausto que você mesmo causou. Quando você morreu eu fiquei órfã de tanta saudade e me lembrei que era o teu colo que eu procurava quando me doía alguma coisa. O meu nego, a minha paixão, o meu companheiro e o meu melhor amigo. Você sabia tudo de mim e foi uma pena que, exatamente por eu ter aberto a minha vida e o meu amor, você tenha pego tudo isso e armado um grande circo, onde cada um de nós, que ficamos, éramos as atrações principais. Como se não tivesse culpa de nada, você simplesmente cometeu um crime. Subiu até o andar mais alto que conseguiu e, quando finalmente eu te encontrei, você deu um passo a frente e se jogou. Eu não vi a queda, mas quem viu disse que não sobrou nada. Não se reconhecia um homem, não se reconhecia os órgãos e nem se sabia o que era sangue e o que era lama. O suicídio é, de fato, a forma mais extrema de se mostrar para o mundo. Porque de nenhuma outra maneira, você se transforma em vísceras apodrecidas, o lugar perfeito para os vermes sem piedade. Sabe, apesar de ainda não ter conseguido acreditar que a minha vida tenha sido destelhada por esse grande tornado, eu tenho que conviver todos os minutos com a certeza da sua morte. Que todos os planos nunca se tornarão realidade e que eu não vou ter mais o seu gosto na minha boca e nem o seu cheiro no meu corpo. Os espíritas dizem que os suicidas não têm paz depois da morte, porque eles transgrediram a lei que rege o universo. A paz que você tanto procurava, infelizmente não está aí, mas agora já é tarde demais. Os místicos afirmam que não é boa coisa guardar recordações dos mortos. Eu acho que isso tem fundamento e por isso o mar acabou de ganhar algumas coisas, uns anéis, uns livros, uns cds e tudo o que a sua presença deixou dentro de mim. Um resto de ódio violento e amor sublime ao mesmo tempo. E eu, particularmente, sinto uma dor tão grande que ela entopiu os meus poros e bloqueou as minhas artérias. Eu não consigo respirar, nem transpirar, nem chorar. E há quem me diga que isso passa. Mas por enquanto eu me sinto flutuar, acima do meu próprio corpo sem vida. Me sinto fraca, sem cor e com uma vontade louca de te procurar dentro de mim. Me sinto sem você.