sexta-feira, agosto 28, 2009

16 horas com o homem bomba

Depois de tudo, inclusive de ter perdido meu passaporte e passagem no aeroporto em cima da hora - coisa que envolveu polícia e um quase não-embarque - achei que já era emoção demais. Tudo recuperado na loja de souvenirs, hora de sentar e esperar pelas próximas 16 horas de vôo, o que não é lá muito excitante.

Quase feliz por estar viajando sem ninguém ao lado, aparece um rapaz que, aparentemente, tinha acabado de acordar e resolveu andar de avião assim que abriu os olhos.

 - Oi, com licença.
 - Oi. Botando um reparo mais intenso no momento e uma pitada de generosidade, o moço era até muito bem apessoado, apesar da barba e da vestimenta.

Eu queria levantar pra pegar a minha bolsa no compartimento, mas tava presa no cinto de segurança.

- Quer que eu pegue sua bolsa aqui? Fácil, fácil. E aquela gentileza toda me fez pensar que seria uma viagem agradável por não estar se sentando do meu lado um imbecil qualquer.

Daí o rapaz se acomodou, tirou um livro da bolsa e começou a puxar conversa, coisa que geralmente me desgasta, mas que dessa vez não.

 - O que você faz?
- Sou jornalista e você? - Bom, eu não sei exatamente o que eu sou, mas tenho uma boa história pra te contar, se quiser ouvir.

 Um segundo relutando e já logo demonstrei interesse. Essas coisas inusitadas sempre reservam surpresas. Suspirando por um momento, olhando para o teto como se buscasse na memória um arquivo cinematográfico, logo começou a contar uma epopéia que parecia ter saído de algum documentário da NatGeo, com um inglês quase perfeito.

 - Eu nasci em Israel e com 18 anos tive que ir pro exército. Lá fiquei por 4 anos e minha especialização é em explosivos. (minha cara se fechou um pouco nessa hora)
- ...
- Fui treinado para ser homem-bomba. (engoli seco enquanto um revertério intestinal se instalava dentro de mim). Me envolvi em uma organização criminosa e fui expulso do exército e daí fui morar em Berlim. Me acharam e fiquei 4 anos preso. (a essa altura já tava toda cagada esperando o cara abrir a calça e mostrar uma banana de dinamite dentro da cueca).

 Pausa.

Os fatos que se seguiram foi que ele se casou, mas a mulher não conseguia ter filhos e então se separaram. Ele se meteu com o crime organizado de novo e a familia o mandou para tratamento psiquiátrico. Ele rumou para a Austrália. Se enfiou numa máfia, se envolvendo logo com a mulher do Poderoso Chefão. Ameaçado de morte, ele estava fugindo para o Chile, motivo pelo qual ele estava naquele avião naquele momento, sentado do meu ladinho.

 - Vou espairecer minha cabeça porque eu a amo, mas não posso ficar nessa situação.
- Claro. E você conhece o Chile?
- Não. - E onde vai morar?
- Em qualquer lugar, não preciso de muito. E também é por pouco tempo, logo depois vou pro Brasil.
- Aaaahhh, que l-e-g-a-l.

 Voamos as 16 horas conversando sobre a vida, amor, comida e Pulp Fiction. Ele parecia um cara legal, quando não demonstrava estar ainda sob tratamento psiquiátrico. Eram regulares os momentos em que ele cantava alto e dançava na poltrona como se não houvesse amanhã e como se ele estivesse no quarto dele. Em Israel.

 Quando paramos em Santiago nos despedimos na escada rolante e ele me desejou boa sorte.

 E desapareceu, como se eu precisasse de mais sorte do que ele.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Tipinhos típicos

Seria ótimo se todas nós fôssemos Paola Bracho e o mundo estivesse cheio de Carlos Daniel. Glória! E estaríamos salvas do angustiado carteado sentimental. Há de concordar que eles são muito mais astutos que nós porque parecem já ter nascido com a caneleira, joelheira, capacete e protetor pros dentes.

Digo, os bons, os interessantes, esses que cutucam sua curiosidade e o seu ponto G com a mesma categoria. Esses malditos seguros de si que nunca se debruçam sobre papos furados e sempre estão cheirando à roupa recém lavada.

Esse tipo de gente nunca deve ter acesso aos seus sentimentos. Do contrário, perdeu, playboy, já era, seríamos vítimas eternas e eles sempre estarão ditando as regras, porque você, como um coroinha imbecil ajudando na missa, entregou de bandeja tudo de mais secreto que tinha. Eles não são maus, no entanto. Só são inteligentes o bastante pra manter os movimentos friamente calculados. Te fazem pensar, questionam tudo e o mais engraçado é que têm um bom gosto irritante pra tudo.

Esse tipinho que treme nossas pernas, gajos que parecem não se importar com o resto do mundo e que fora da cama parecem tão frios quanto o azulejo do banheiro no inverno. Do mais, um conselho: por mais tentador que seja vomitar nesses fulanos tudo de encantador que eles plantaram em nós, pedir pra nunca irem embora ou falar de amor depois de duas garrafas de Chardonay e o quão fudidas estamos de paixão... resistir é a palavra.

Eles não gostam de exageros, de mulherzices, de nhem nhem nhem. Mesmo que eles passem a noite inteira abraçados a você e mexendo no seu cabelo, isso é longe de ser amor. Eles não amam do jeito que nós queremos, nem no jeito que nossas mães sonharam que sejamos amadas.

Eles gostam, têm carinho, são gentis e, diferentemente de nós, animais de tetas e cabelos esvoaçantes, sabem distinguir isso de amor. Eles são espécie extraterrestre, há quem diga, crianças índigo, estelares, qualquer porra dessas. Esse povo que tem um charme especial mas nunca, nunca vai deixar ninguém (leia-se você) ultrapassar a linha da segurança emocional. É por isso que eles estão certos. E me fazem pensar que eu fiz bem em abrir a porta pra ele hoje de manhã com um sorriso contido e um "ok, nos vemos".

Mesmo que depois, quando ele saiu da garagem com aquele jipe branco, eu tenha tido vontade de pular pela janeta e dizer como eu queria essas noites pro resto da minha vida. Porque dói uma dor ardida tentar acobertar sentimentos com racionalidade. Por mais racional que isso possa ser.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Arte de areia

... e ainda tem gente que se auto-proclama artista.