sexta-feira, junho 11, 2010

Loucuras de amor no trânsito

Centro da Cidade, seis da tarde.

Ao trânsito aporrinhado do horário juntou-se o o povaréu que ia e vinha da Feira do Livro, uma mistura de piriguetes, velhos fedorentos que atrapalhavam a circulação nos corredores e tipinhos típicos, desses que fazem malabares e insistem em usar a camiseta do Che Guevara como símbolo de resistência.

Eu atravessava isso tudo, como Sarah Jéssica Parker atravessou o deserto. Óbvio que sem glamour, sem salto, sem elegância. Tá bom vai, atravessei aquilo tudo como a Phoebe.

Eu tava há um quarteirão do meu carro, quando parei na faixa de pedestres e esperei o semáforo fechar para atravessar a rua. Em meio aquele tumulto todo, buzinas e cheiros de marmitas almoçadas voltando pra casa, um carro parou no meio da rua e de dentro, uma pessoa me fez sinal para atravessar na sua frente. Que simpático. Simpático é o meu cu, porque quando eu olhei mais atentamente para o motorista, eu vi um deus, uma escultura, uma homenagem aos conceitos da estética moderna, sorrindo e fazendo covinhas na bochecha.

Por um momento, eu pude ver no canto da boca daquele moço um brilho que reluzia dos dentes *plim* e então mais uma cena da minha auto-cine-biografia estava sendo rodada. Moreno, cabelo meio comprido, e um sorriso daquele tamanho.

Tudo aquilo gentilmente me autorizando a atravessar a rua na frente do seu carro, não importando que o trânsito inteiro fosse prejudicado nem que as regras mandassem que eu esperasse todos os carros passar. Dá pra entender que ele lutou contra a imposição do sistema por minha causa e me deu ali uma prova de amor, com brilhinho no sorriso e tudo mais?

Sacou que ele fez o que parecia impossível por mim? E que mesmo com todas aquelas dificuldades todas, ele transgrediu todas as regras e, não satisfeito, ainda sorriu como quem dissesse naquele moemnto: "Princesa, só você me importa nesse mundo".

Abaixei a cabeça e, agradecida, também ri pra ele. Mas eu ri de nervoso, porque sabia que nunca mais aquele filho da puta vai cruzar o meu caminho.

 

quarta-feira, junho 09, 2010

Strangers in the night

12 de junho. A data do tchacabum, do Love is in the air, da mistura do Brasil com Egito e de trocar o sutiã bege por algo de respeito. É quando compradores esbaforidos transbordam pelas janelas dos shoppings e as editorias de economia dão a mesma matéria, não importa que ano seja: o comércio sempre registra aumento de 20% nas vendas. Mas há releituras alternativas desse dia.

Por exemplo, os que olham para o lado e não vêem ninguém por quem enfrentariam 7 horas de fila no motel. O homem / mulher que se entristece por apenas receber um torpedo no celular, dizendo que os créditos estão terminando. O que disfarçam carência afetiva e sexual com a desculpa manjada de que optou por estar solteiro, filosofando sobre o pensamento lacaniano de se conhecer o indivíduo como um todo, não como metade de outro.

Contudo, colega, nada, nada é tão patético nesse dia quanto os casais freelancers, os que se gabam por estar pegando alguém sem dar satisfação, mesmo que esse alguém já esteja mijando de porta aberta na sua casa. Para essa categoria não tem manual de instruções e eles não sabem como proceder no dia 12 de junho. De acordo com essa realidade, podemos estabelecer dois comparativos. Acompanhe.

O time das meninas: Elas esperam ansiosas pelo Dia dos Namorados, sim. Porque é aí que ta o pulo do gato e elas vêem enfim se o cara pode ser o pai dos seus filhos ou não. Daí, dão um jeito de encontrar com o cara de qualquer jeito. É possível que usem um AR-15 na cabeça do pretê – que é pra ele não fugir – com a certeza de que o cabelo está hidratado e a roupa séquissi o bastante para otimização dos resultados. Afinal, é praticamente a final de Lost. Para sua segurança, elas compram um presente na véspera e seguem o raciocínio: se ele me der um presente, eu entrego. Se não, finjo que nem tinha lembrado que era Dia dos Namorados. “Nossa, como sou distraída, meu deus”.

O time dos meninos – Desligam o telefone. E mandam uma mensagem no fim do mês escrito: “Oi. Vc ta sumida pq? Sdd, bjs” É a eterna mania das mulheres de querer e querer e querer. A tática infalível dos homens de fazer com que elas queiram cada vez mais para a fuga ficar ainda mais espetacular. Tudo pra que a vida pareça ter algum sentido.