Ao trânsito aporrinhado do horário juntou-se o o povaréu que ia e vinha da Feira do Livro, uma mistura de piriguetes, velhos fedorentos que atrapalhavam a circulação nos corredores e tipinhos típicos, desses que fazem malabares e insistem em usar a camiseta do Che Guevara como símbolo de resistência.
Eu atravessava isso tudo, como Sarah Jéssica Parker atravessou o deserto. Óbvio que sem glamour, sem salto, sem elegância. Tá bom vai, atravessei aquilo tudo como a Phoebe.
Eu tava há um quarteirão do meu carro, quando parei na faixa de pedestres e esperei o semáforo fechar para atravessar a rua. Em meio aquele tumulto todo, buzinas e cheiros de marmitas almoçadas voltando pra casa, um carro parou no meio da rua e de dentro, uma pessoa me fez sinal para atravessar na sua frente. Que simpático. Simpático é o meu cu, porque quando eu olhei mais atentamente para o motorista, eu vi um deus, uma escultura, uma homenagem aos conceitos da estética moderna, sorrindo e fazendo covinhas na bochecha.
Por um momento, eu pude ver no canto da boca daquele moço um brilho que reluzia dos dentes *plim* e então mais uma cena da minha auto-cine-biografia estava sendo rodada. Moreno, cabelo meio comprido, e um sorriso daquele tamanho.
Tudo aquilo gentilmente me autorizando a atravessar a rua na frente do seu carro, não importando que o trânsito inteiro fosse prejudicado nem que as regras mandassem que eu esperasse todos os carros passar. Dá pra entender que ele lutou contra a imposição do sistema por minha causa e me deu ali uma prova de amor, com brilhinho no sorriso e tudo mais?
Sacou que ele fez o que parecia impossível por mim? E que mesmo com todas aquelas dificuldades todas, ele transgrediu todas as regras e, não satisfeito, ainda sorriu como quem dissesse naquele moemnto: "Princesa, só você me importa nesse mundo".
Abaixei a cabeça e, agradecida, também ri pra ele. Mas eu ri de nervoso, porque sabia que nunca mais aquele filho da puta vai cruzar o meu caminho.