quinta-feira, julho 07, 2011

Eu te amo tipo como?

Dia desses li uma crônica da Martha Medeiros que me deu um pouco de aflição. No texto, ela lamentava o fato de as pessoas não falarem mais de amor umas com as outras, os casais não dizerem 'eu te amo' como era antigamente e pedia que nós, 'meninos e meninas', falássemos mais as três palavrinhas mágicas. 

A aflição veio porque achei esse discurso dela, além de desnecessário, bastante perigoso. A Martha escreve como ninguém e eu tenho todos os livros dela, mas na minha humilde opinião ela está equivocada.

Por que deveríamos falar mais 'eu te amo' se não sabemos ao certo o que é isso e vivemos errando o alvo da coisa? Por que deveríamos sair por aí dizendo que amamos sendo que muitas vezes esse sentimentão todo se resume a uma simples vontade de dar ou de comer alguém? Qual a razão de considerar amor a sua necessidade de ganhar um abraço, de trocar umas palavras inteligentes, de se sentir importante?

E aí que cruzamos vidas e mais vidas despretensiosamente e ficamos doidos pra sermos protagonistas, mas o que no sobra às vezes é só uma participação especial ou a figuração, papel que ninguém quer desempenhar na vida de ninguém. Sonhamos todo santo dia viver relações Ramones, intensas, alucinadas, feitas pra perder a cabeça e te fazer sentir como se toda a vida coubesse em três minutos de duração. Os Ramones não tinham partitura, tocavam tudo energicamente na base da intuição e berravam uma paulada atrás da outra. Mas as músicas duram isso. Não mais que três minutos.  

Antes de dizer que ama, considere a hipótese de que a relação pode ser Miles Davis, construída parte por parte, com a hora do tema e a hora do improviso, bem costurada, pensada e com uma dinâmica absolutamente racional, sem por isso deixar de ser intensa. A vantagem do jazz, nesse caso, é que dura mais, bem mais do que um punk rock e pode causar arrepios bem mais constantes. Tanta racionalidade chega a atingir o ápice do sentimentalismo. 

Daí, se ao final da partitura inteira ainda tiver sobrado paciência e admiração, pode soltar umas palmas e  um eu-te-amo. Aos ouvidos do outro, vai soar como música. Aos ouvidos do resto do mundo, uma verdade entre tantos equívocos.     

10 comentários:

JP TROVÓ disse...

No começo do texto eu queria parar de ler e escrever: NÃO CONCORDO COM VC.
Depois continuei a ler e parei pra escrever: A MARTHA ESTÁ EQUIVOCADA MESMO.
Mas como curioso que sou, li o texto até o final e ... não decidi se estou do seu lado ou dela.
Hoje eu amo. Mas será?
(ele não pode ler)
Mas é mais que gostar... dura mais que uma música... mais que um cd... e agora? Você me deixou confuso.
A única certeza que tenho é: VOCÊ ARRASA NOS TEXTOS QUE FAZ.
Admiro cada palavra :)
beijos.

Toad - Matheus H. disse...

Olha... fazia tempo que eu não lia um texto tão legal. Mandou muito bem, a analogia com os tipos de música ficou genial, parabéns.

Analídia disse...

Ótima abordagem. Acredito que cada um tenha um conceito diferente sobre amar e amor. Confundem com paixão, tesão, carência, e tantos outros sentimentos que mexem com a nossa cabeça. Mas é o tipo de coisa que se aprende vivendo, tropeçando, amando e odiando. O significado muda ao longo da vida. Quem dera fosse verdade se as pessoas amassem tanto quanto distribuem "eu te amo" por aí. Talvez o mundo fosse menos pior. :D

Fran Micheli disse...

É... é isso mesmo, apenas uma abordagem, uma possibilidade. Não que não exista amor, mas é que realmente eu vejo uma loucura generalizada por aí em relação a isso. Sei lá, que bom que vcs gostaram. :)

Dan disse...

Meu.. baseado nos ultimos fatos da minha vida, concordo plenamente com você. Dizer eu te amo é muito mais do que dizer. acarreta muita coisa que se não for verdade, como no meu caso, prejudica o outro.
Vc sabe né?

bjo franga!
:D

ikah disse...

realmente ninguém quer ser coadjuvante da história
o que mais me intriga nesse universo sentimentalista
é que muitas pessoas tem medo e receio de se entregar completamente em uma relação. oriundos das nossas decepçoes anteriores nos guardamos e somos para sempre infelizes.
nao sabemos o que é o amor e não damos oportunidade a ele, fazemos joguinhos de perderores e conseguimos a infelicidade duradoura, pulando de galho em galho e berrando por ai que amor é brega e ultrapassado, perdendo a oportunidade de encontrar alguém e ser realmente feliz

Anônimo disse...

Texto barbaro, menina.

Anônimo disse...

O mais sarcástico da experiência do amor é depois ver que quando se diz eu te amo você na verdade só tá dizendo a alguém que nada tem a ver com o que vc se sente a respeito da grandeza que existe dentro de você...

Andre L disse...

Mais uma vez bato palmas.
Parabéns!

ascka disse...

Sei lá, senti uma apologia a racionalização muito forte dos sentimentos, o que me faz ficar um pouco ressabiada. Tentar classificar cada tipo de sentimento em sua determinada caixinha (amor, paixão, tesão) me parece difícil, uma vez que, em geral, todos esses sentimentos vem embaralhados...
Acredito que a cautela pode evitar sofrimentos, mas também pode embarreiras muito o cultivo de sentimentos agradáveis...
Enfim, acho que é uma linha muito tênue que divide "se entregar, acreditar que ama" e "encarar racionamente as necessidades biológicas."