Hoje, por causa do trabalho, voltei à escola em que estudei a vida toda. E estavam todos la: o cheiro de salgado que vinha na cantina, os banquinhos de pedra desconfortáveis e uma cena que, a meu ver, foi congelada no tempo e no espaço: a coordenadora pisando numa coxinha e descendo escada abaixo com a bunda gorda varrendo os degraus.
Em vez de ajudar a gente riu. E eu fiz xixi na calça de tanto rir. A desgraça era dela, mas eu ri tão gostoso que lembro que meu corpo tinha ficado mole, assim, quando a cara não precisa de nenhum esforço pra manter um sorriso.
Era legal enxergar as coisas com 11 anos e imaginar que rir da tia escorregando na coxinha não era crime, nem agressão moral, nem falta de educação. Era apenas muito engraçado.
Hoje acho que eu não poderia rir abertamente de alguém escorregando, já que o que deve ser feito é respeitar o próximo como a si mesmo e não fazer com ele o que eu não quero que seja feito comigo. Do contrário é bullying. Se eu fizer isso serei condenada pelo cristianismo, pelo budismo, pelo Santo Daime, pelo impressionismo, pela cartilha dos bons modos da Glória Kalil, pelo Estatuto dos Direitos Humanos, pelas crônicas do Rubem Alves.
Conseguiram nomear essa coisa de rir da cara de alguém sem ter graça para a segunda parte envolvida. Bullying é uma palavra bonita sim. Mas não conseguiram inventar uma palavra pra esse sentimento que eu tive hoje.
De fato as coisas sem nome são bem mais significativas na vida da gente.
(este é Inácio)
Um comentário:
Eu ainda tenho 11 anos!
E o inácio ficou lindo fazendo "o artístico" hehehe.
Bjo. Saudade.
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