sexta-feira, março 25, 2011

Dia seguinte

Pode ser a maior dor que você já sentiu na vida: dor de coração partido ou de meter o dedinho na quina da mesinha de centro, contanto que seja uma dessas dores pontuais, provocadas por sujeito externo, agudas e que te pegam de surpresa. Tsunamis, terremotos também entram na conta. 

Pode ter certeza de que a dor e os estragos vão ser (ou parecer) muito maiores no dia seguinte. E por isso às vezes eu desejo que o dia seguinte não exista.

Hoje pode ser um ótimo dia pra ele terminar um casamento e ambos concordarem. Mas só amanhã eles vão se dar conta do peso de uma decisão como essa através de pequenas coisas, tipo a falta do cheiro do cabelo dele, a ausência do mal humor dela de manhã. São buracos que a vida adquire só no dia depois do acontecido e, quando pensamos que somos fortes e decididos, admitimos o contrário nas 24 horas seguintes. 

Quando perdemos alguém de verdade e vamos ao enterro, pode ter certeza de que o nosso próprio enterro vem no dia seguinte, tamanho sofrimento com o não-existir daquela pessoa. Filmes em stop-motion passam pela nossa cabeça quando abrimos os olhos na manhã do dia seguinte. O peso de um velório, de um enterro, da perda, da rejeição, do amor, do ódio, da tristeza ou da injustiça despenca sobre nossas cabeças no exato momento em que acordamos um dia depois. 

Anteontem o macaco do carro caiu no meu pé e, apesar de na hora ter visto Jesus dançando macarena, achei na hora que não era nada. Dia seguinte nasceu uma bola de boliche onde deveria estar um pé. Hoje sobrou uma bolinha de ping-pong. Domingo vai tá novinho em folha. E assim as dores se encaminham no dia e nos demais dias seguintes, cada uma com sua respectiva escala.

E não podia deixar de registrar o argumento que um amigo meu usa pro ditado "Vão-se os anéis, ficam os dedos": "o foda é que esses dedos sempre ficam enfiados no cu".

Muito bem.

quarta-feira, março 23, 2011

Vivendo em comunidade

Eu costumava me divertir bastante com as comunidades do Orkut. Não com elas, propriamente, mas com o nome delas. Uh, nossa, Orkut, que brega, que out, que mimimi. Pois era o que tinha em 2004. Agora evoluímos e se quisermos nos aconchegar no ombro virtual de semelhantes, algumas redes sociais se especializaram em segmentos bastante, ahm, afunilados, que podem unir pessoas com o mesmo objetivo, gosto ou necessidade. 


Teta de graça
Você, amiga que tá afim de colocar uns peitos mas não quer por a mão no bolso, a solução está no My Free Implants. Moças postam suas fotos e seus "amigos" contribuem com dinheiro para que seja feita a cirurgia. Quanto mais amigos, mais popular você é e mais dinheiro vai ter. Se conseguir o suficiente p/ por silicone, a sua retribuição à tamanha generosidade será somente postar fotos sensuais e interagir virtualmente com seus patrocinadores.

Sensualizando
Foda. É o que tem no Fuckbook, legitimamente brasileiro. A cara é do Facebook, mas aqui interesse só sexual. Nem precisa ligar no dia seguinte.


Balada dos insetos feios Encontre o amor da sua vida no The Ugly Bug Ball, onde são aceitas somente pessoas comprovadamente feias. Segundo a administração da rede, eles "lidam com a realidade e não suportam casais perfeitos". www.theuglybugball.com


Sou rica Rede social para milionários, aristocratas e celebridades de Hollywood? Tem também. O A Small World só aceita gente convidada por membros, e a ideia é reunir gentes poderosas que tenham ligação uns com os outros. Ninguém sabe o que rola lá dentro. Me convidaram, mas achei que era muita perda de tempo.

Cada um com o seu
Curte um bigodinho? No Stache Passions mulheres podem se deliciar com adeptos do estilo Hitler, Borat, Sarney, Dali, Raul Julia, Marx, e vários outros. Tem algumas outras que podem ser bem mais proveitosas... como a Taste Buds que une casais através do gosto musical dos usuários, e também a brasileira Skoob, onde se faz amigos através de hábitos de leitura e compartilhamento de e-books.

 *com informações do Huffington Post e Galileu.

segunda-feira, março 21, 2011

Segunda

É nas segundas-feiras que as coisas acontecem. E é um dia tão foda que nem primeira-feira existe. Ficou com medo e vazou.

Bom dia pra:

- Fazer a barba
- Começar a drenagem linfática que comprei no Group On por R$56
- Limpar a casa (maldito cheiro de bicho morto no ralo)
- Terminar esse namoro chato
- Colocar aquela calça de molho
- Fazer um blog. Um twitter. Um fotolog. Um perfil no Par Perfeito.
- Começar o livro que peguei emprestado
- Me declarar praquela arrogantezinha que acha que eu sou nada. E na verdade, devo ser, porque espero essa segunda-feira pra que as coisas de fato sejam colocadas em pratos limpos. (ela é tão linda)
- Cortar o carboidrato totalmente. Não, só depois das 18h.
- Fazer o trabalho de Ciências, que é pra segunda.
- Terminar de ver aquela trilogia francesa, o tal da "Liberdade Azul" e blablabla, que obrigaram a assistir na faculdade.
- Segunda eu peço demissão. Já chega.
- Começar o pilates com power yoga e dança de salão. (essa bunda não vai cair assim tão fácil)
- Vou abrir firma no cartório
- Vou fugir com os dólares pra fora do país
- Começar a comer linhaça com melão
- Começo a procurar emprego
- Vou tomar viagra e dar 5 sem tirar.
- Ir na numeróloga porque não é possível eu estar solteira há mais de seis anos.
- Ligar pra minha avó na Paraíba (aquela velha chata)
- Instalar o Google Chrome.
- Mandar uma mensagem de aniversário atrasado pro ex-namorado. (pra que ele pense que eu realmente esqueci o aniversário dele ontém)
- Mudar o plano da academia. Meus bíceps não estão ficando como os do Andrezão.
- Baixar os novos do Strokes, Green Day e Panic at the Disco que lançaram hoje. Ela gosta dessas coisas, e segunda prometo ouvir tudo e comentar no jantar da terça.
- Vou procurar outra escola pro Miguelzinho. - Começo a procurar emprego
- Tentar outro filho. - Fazer surpresa com champagne e cinta-liga pro Waldemir.
- Consertar essa maldita impressora.
- Bom dia para descobrir quem é essa biscate que liga todo dia pra ele.
- Segunda sim, eu me jogo. E aí vão sentir minha falta.
 - Segunda eu começo. - Segunda eu termino.

Segunda deveria ser eleito o **Dia Intergalático de Carregamento de Peso nas Costas**.

 

sábado, março 12, 2011

Música de combustível

Nunca me esqueço da apatia da galera que estava se formando em Musicoterapia, lá na faculdade. Estudantes caxias, sem um pingo daquele questionamento que faz a gente ser um pouco menos medíocre, embora os rastafaris e as tatuagens de alguns ali indicassem o contrário.

Pensava que, se por acaso eu estivesse internada num hospital e, se alguém lá resolvesse me aplicar musicoterapia com aqueles métodos patéticos, eu iria querer morrer e levar todos eles pro inferno comigo. Nhem nhem nhem careta, minha gente, faz mal até pro diabo.

Terapia com música (ou vice-versa) é o que esses caras aqui conseguiram fazer. E estão por aí, pelo mundo, jogando merda na cara de quem sente pena deles. E isso significa ter muita capacidade de se deliciar com a vida. E não deve ser fácil.

Staff Benda Bilili (República do Congo) A maioria dos caras dessa banda teve poliomielite e não andam, ou são cegos. Os caras têm uma musicalidade anormal e tocam o terror nas apresentações. Não dá nem coragem de sentir pena de sujeitos tão porreta assim.

 


The Zimmers (Inglaterra) Este projeto começou por volta de 2007 e a ideia foi, primeiramente, fazer uma campanha para valorização da terceira idade no Reino Unido. Eles ficaram conhecidos por gravar "My Generation", do The Who, e com o sucesso decidiram fazer outros experimentos. Viajam por aí cantando releituras de Led Zeppelin, Mika, Radiohead, Prodigy (Firestarter, abaixo)e outras. O membro mais novo da banda tem 90 anos. Não dá vontade de apertar muito cada um deles?

 


Rudely Interrupted (Austrália) Ja falei desses caras aqui, mas não custa lembrar dessa aposta incrível. O Rudely Interrupted é uma banda indie australiana formada por pessoas com deficiência mental, visual e portadoras de autismo. A iniciativa foi do guitarrista, que é psiquiatra (ou terapeuta, não lembro) e quis botar os meninos pra ferver no róque.




Coral Salva Soul Brasil Esse coral é daqui de Ribeirão. Foi um grande prazer fazer uma matéria sobre eles no ano passado, já que a história dessa galera é um bom roteiro de cinema. Todos eles foram retirados ou das ruas ou de situações de risco e transformados em cantores impressionantes. Tudo começou há mais de 30 anos, quando o coordenador do coral, Tarcíso, conheceu a sua esposa (que também trabalha com ele) quando morava nas ruas e era usuário de droga. Ela era de uma ONG, o encontrou pela rua e o levou para um abrigo. Os dois não se desgrudaram mais e fundaram a ONG Vida Salva Vidas, que mantém o coral.

 

 Sabe, essas coisas são muito bonitas.

sexta-feira, março 11, 2011

Sou foda

Dar conselhos é o passatempo preferido da espécie humana.

Toda vez que alguém me aconselha a “acreditar mais em mim”, “ter mais amor próprio”, “ter confiança no meu potencial” (esse é o top 3 dos conselhos maravilhosos que recebo), a única coisa que me vem a cabeça é a Gretchen recebendo esses mesmos incentivos da mãe ou dos amigos. E então penso nela se casando pela 14ª vez, acreditando no que diz seu coração. Ou fazendo a 98ª plástica na cara, acreditando piamente no seu potencial para modelo de beleza. E ainda, dando entrevistas para a Sônia Abrão, para esclarecer este ou aquele boato – capazes de mudar o eixo da Terra de lugar – por super acreditar em si própria.

Daí penso que a auto-estima inflada, em muitos casos, pode mascarar a imbecilidade de uma existência inteira. Auto-imagem distorcida é sim a praga do século.

Quando eu era pequena, minha avó me levava numa benzedeira que, depois de me chicotear dos pés à cabeça com uma folha de comigo-ninguém-pode, dizia que eu estava sempre com muito quebranto. “É muita inveja, minha filha”. Ok. Eu tinha 10 anos e não tinha fome, ou ia mal na escola, ou vivia caindo pela rua porque o mundo me invejava.

Na vida adulta não muda nada. Vivemos tendo a absoluta certeza de que o vizinho tem inveja do nosso carro, que a amiga bota olho-gordo no nosso namoro, que a colega de trabalho deixa o ar pesado porque morre de inveja da nossa competência.

Sendo assim, nós, seres supremos ao redor do qual o universo gira, temos o direito de nos sentir maior e mais importante do que qualquer outro ser animado desse planeta. Teremos toda a razão em colar no pára-choque do nosso Voyage um adesivo escrito “Sua inveja faz a minha fama”. Salvo algumas exceções e situações, todo mundo se acha o último frasco de KY do deserto. E então, prefiro assumir minha insignificância com a necessária dose de realismo (mal interpretada como falta de auto-estima) a acreditar que todo mundo ta afim de me dar um Oscar.

Porque sei que na maior parte do tempo vou acabar recebendo, no máximo, um troféu imprensa.

 

quinta-feira, março 03, 2011

As armas e os barões assinalados

* por Adriano Quadrado - Por isso é que eu te digo que o texto vale por si. - Vale por si como? - Vale por si, fala por si, ele cria significado além da intenção do autor, entendeu? - Ou então é você que acha que cria e vê significado onde não tem. - Se eu vi significado, ele significou alguma coisa, porra. - Mas não foi o que o autor quis dizer. - E daí? - Daí que tem o significado do autor, e tem a sua viagem, mas a viagem é sua. - E daí? O texto vale por si, entendeu? E o autor é que nem um psicógrafo de todas as ideias possíveis do texto. Um psicógrafo daqueles que ficam inconscientes na psicografia... - Não fala merda! Você acha que o cara não tem intenção no que escreve? - Claro que tem, mas isso não vem ao caso. O texto vale pelo que o leitor sentir de significado nele, é como uma entidade viva que vive significando. - Ah, cala a boca! - Tou te falando. Ele é qualquer coisa e não é nenhuma em especial. Nem a coisa que autor quis que fosse. - É o mundo das ideias, tipo? - Tipo. - Como assim? - Tipo isso. As ideias possíveis, as ideias potenciais usam o fulano como cavalo, entendeu? - E nasce o bebezinho-texto? - É. - Então a intenção do autor não vale merda nenhuma? - Vale só como mote pra fazer o texto existir, depois ele se vira sozinho. - Que nem aquele fantasma do filme do nenê? - Isso, uma aparição, uma doideira livre, uma coisa qualquer. - Tipo os Lusíadas? - Isso! Tipo Taprobana. - Que quer dizer isso, aliás? Eu nunca entendi. - Não sei, pra mim parece nome de rango, sei lá, uma tapioca, só que uma tapioca mourisca. - Meu! Rolou um puta deja-vu agora! - Ai, deu pau na Matrix... *Quadrado é jornalista, editor do Jornal A Cidade, finge que pratica yoga e é uma ótima companhia para fechar bares pela manhã. Não perdam o çençaçional www.quadrado.com