Pode ser a maior dor que você já sentiu na vida: dor de coração partido ou de meter o dedinho na quina da mesinha de centro, contanto que seja uma dessas dores pontuais, provocadas por sujeito externo, agudas e que te pegam de surpresa. Tsunamis, terremotos também entram na conta.
Pode ter certeza de que a dor e os estragos vão ser (ou parecer) muito maiores no dia seguinte. E por isso às vezes eu desejo que o dia seguinte não exista.
Hoje pode ser um ótimo dia pra ele terminar um casamento e ambos concordarem. Mas só amanhã eles vão se dar conta do peso de uma decisão como essa através de pequenas coisas, tipo a falta do cheiro do cabelo dele, a ausência do mal humor dela de manhã. São buracos que a vida adquire só no dia depois do acontecido e, quando pensamos que somos fortes e decididos, admitimos o contrário nas 24 horas seguintes.
Quando perdemos alguém de verdade e vamos ao enterro, pode ter certeza de que o nosso próprio enterro vem no dia seguinte, tamanho sofrimento com o não-existir daquela pessoa. Filmes em stop-motion passam pela nossa cabeça quando abrimos os olhos na manhã do dia seguinte. O peso de um velório, de um enterro, da perda, da rejeição, do amor, do ódio, da tristeza ou da injustiça despenca sobre nossas cabeças no exato momento em que acordamos um dia depois.
Anteontem o macaco do carro caiu no meu pé e, apesar de na hora ter visto Jesus dançando macarena, achei na hora que não era nada. Dia seguinte nasceu uma bola de boliche onde deveria estar um pé. Hoje sobrou uma bolinha de ping-pong. Domingo vai tá novinho em folha. E assim as dores se encaminham no dia e nos demais dias seguintes, cada uma com sua respectiva escala.
E não podia deixar de registrar o argumento que um amigo meu usa pro ditado "Vão-se os anéis, ficam os dedos": "o foda é que esses dedos sempre ficam enfiados no cu".
Muito bem.

