Tenho visto e ouvido muita gente que se diz doente por aí, físico e, não menos grave, mentalmente. Mas não é a doença em si que me faz estranhar essa galera, mas sim o orgulho e o prazer com que elas se auto-denominam “doentes”. E não estou falando só da meia idade frequentadora irrestrita de farmácias, postinhos e consultórios.
Quando alguém divulga por aí “eu sou bipolar” como se divulgasse uma dessas frases feitas fofuxas, mais me parece que está reforçando seu marketing pessoal. É bonito, tá na moda, é cool estar de bom e mau humor alternadamente. Na cabeça deles é charmoso amar e odiar pessoas na mesma intensidade várias vezes ao dia, tão charmoso quanto às camisetas xadrezes que insistem em vestir. Tendência. Adolescentes e pós-adolescentes adoram.
Vejo gente incapaz de manter uma amizade ou conquistar uma nova, mas faz questão de gastar o salário para chorar no ombro do terapeuta. É mais garantido. É pago. É socialmente aceito.
Conheço estressados que se não se sentem o tempo todo sob pressão, acreditam piamente que estão pecando, burlando a lei do esforço. Precisam de argumentos para se queixar do mundo e para provar a si e aos outros que fazem muito além do que deveriam e que, portanto, merecem um troféu do universo. Nesse caso, as expectativas são tão altas quanto as frustrações.
É claro que se proclamar (disse proclamar, não ‘ser’) doido é uma vantagem que te dá a sensação de estar à frente dos normaizinhos soltos por aí. O fato é que todo mundo se acha doido, quando na verdade, é tudo a mesma coisa: um bando de gente normal que acredita piamente ser diferente.
Quando percebo que alguém sente orgulho em se afirmar bipolar, depressivo, pessimista, neurótico, estressado, só consigo ver um letreiro em neon em sua testa escrito “olhe para mim, carrego as dores do mundo”.
Uma pausa para quem acha que eu tô desdenhando dos problemas psicológicos de cada um. Eu tenho, tu tens, ele tem e todos nós temos entraves e seria ridículo eu querer julgar a insanidade de cada um, inclusive a minha. O que difere é o que cada indivíduo faz com isso.
Se alguém passa a usar seus problemas e desvios para o auto-conhecimento e não para o marketing pessoal, aí sim, as coisas começam a ficar verdadeiramente diferentes.
Pelo menos do ângulo que eu espio a vida.