Setenta por cento peito. É o que oferecem por aí algumas marcas de peru resfriado, na disputa ávida pela clientela natalina. Amigos, a questão é: por que a porcentagem de peito é, de fato, algo relevante nas questões publicitárias e fator determinante na decisão de uma compra? Digo, imagine se existisse um cara com essa mesma porcentagem de peitoral ou uma mulher com 70% peito (Sheyla Hershey, que chegou o mais perto disso, não terminou bem). É pouco provável que a pessoa seja um sucesso na balada.
Assim como o peru com setenta por cento de peito, muitas outras coisas nos são empurradas goela abaixo, desde a obrigação de assistir à Missa do Galo até a necessidade de abraçar e desejar votos de felicidades a quem você nunca viu na vida. E quer saber? Nós fazemos isso todos os anos e ainda achamos bom, mesmo que reclamemos e blasfememos a comemoração.
O peitoral do peru é, na verdade, uma importante ferramenta na estrutura familiar. Ele é o centro agregador de um sistema complexo por onde gravitam, uma vez ao ano, seres estranhos a si mesmos, que geralmente estão lá por motivos de força maior à sua vontade própria. Sem ele, este sistema seria dispersado, gerando caos, confusão e perda de contatos para futuros empréstimos financeiros.
Em uma reunião natalina de família, podemos catalogar significativas espécies que têm como único fator comum o desejo de meter a boca no peitoral da pobre ave que, assim como Cristo, morreu em favor da união da humanidade. (Vejam a consistência da simbologia)
Enfim, vamos às espécies já catalogadas pelo INTERBIFA - Instituto Internacional de Biologia Familiar:
Kunhadus Extravazadis - Velho conhecido da família que acredita piamente que é da família. Costuma ser um dos primeiros a chegar na festa de família e o último a ir embora, caso não pernoite no sofá da sala por ser proibido dirigir bêbado. Tem como características piadas engraçadas como “é pavê ou pacumê?” ou “onde você comprou isso tinha pra homem”, acompanhadas geralmente de sua própria gargalhada.
João Victor Pentelhus – O primo mais novo que, desgraçadamente corre por debaixo da mesa sob os gritos da mãe que, sem levantar a bunda da poltrona, tenta contê-lo usando a força da mente. Ostenta um corte de cabelo tigela e gosta de brincadeiras agradáveis como gritar, espernear, peidar em público e pular em idosos presentes.
Cleydis Alchovitheiras – A tia avó. Aprecia falar sobre a novela e sobre o corno do vizinho dela que, imagine você, não sabe que todo dia o encanador aparece de tardezinha para apertar a rosca da mulher dele. O assunto também se alterna com efeitos colaterais do Bezetacil e do lançamento inovador da Novartis para tratamento de artrites.
Desconhecidus Medonhus – Lembra sua priminha loirinha que brincava de Barbie ontem na sua casa? Então, ela acabou de prestar o Enem e trouxe para a ceia de natal um novo brinquedo para apresentar à família. Magro, encardido e com cabelo ensebado enfiado dentro de um boné aba reta, ele não fala, não demonstra sentimentos e se identifica com o canto do sofá. Costuma ser arrastado pela mão pela sua prima loira, do contrário, não se mexe.
Mamis Fatídicus – A sua velha conhecida e que, provavelmente, foi responsável por preparar a iguaria peituda que repousa morta no centro da mesa. Ela fala, fala, fala, fala sobre Dilma, quem matou o Saulo, sua última excursão para Caldas Novas, reposicão hormonal, dificuldade de arrumar uma empregada decente e os benefícios da acupuntura para suas crises de hipertensão. Mas ai de você se falar um ai dela.
Karlãum Proble-maticus – O tio que sempre leva salada – porque é mais barato – e come mais que todo mundo. Também costuma exagerar no álcool e a largar sua mãe idosa para traz para que os outros se encarreguem da velha. É o tio que brinca com as crianças e que aparenta ter a mesma idade mental dos sobrinhos. Tem um bom coração, mas vive endividado e é motivo de comentários constantes na roda familiar porque nunca arruma nem emprego, nem casa, nem uma namorada decente.
Rycah de Capitalyz – Essa aí é a sua prima da sua idade que cresceu com você, brincou com você, mas virou alguém na vida. Mora no Alto de Pinheiros em São Paulo, é descolada, viaja todo bimestre para o exterior para reuniões com os diretores da multinacional onde é gerente de marketing. O cabelo tem luzes californianas e ela sempre traz lembrancinhas para os mais chegados, o que geralmente é um saco de roupas da Osklen que não usa mais. Fuma loucamente, aprecia cervejas e já tentou se matar por causa de um artista plástico espanhol que não lhe dá a mínima.
Conhecidus Dystantiz – Aquele que alguém diz que conhece de algum lugar. Apareceu na ceia de Natal porque é irmão do cunhado do vizinho da sogra de algum primo seu que teve dó por ele não ter família nem amigos na cidade. Geralmente ele leva uma sobremesa que é sorvete Kibon de flocos. É até gente boa, mas tem a coragem de aparecer na festa com cinto e sapato caramelo combinando.
É claro que as espécies descritas aqui sempre variam de acordo com o tamanho e complexidade psiquiátrica de cada família. O negócio é que o Natal ainda marca a nossa vida, seja lá por qual motivo for, pela bebedeira, pelo cristianismo, pelo feriado, por achar que vai ser o último natal (que nunca chega) da sua bisavó de 104 anos.
Se quem não gosta do natal tem total direito de ser repetitivo e rogar pragas aos quatro cantos do mundo contra essa festa capitalista, religiosamente estúpida e sem sentido, quem gosta dele também pode livremente se dar o direito de enfeitar a árvore, passar horas tentando achar uma vaga no estacionamento do shopping e comprar o peru que mais lhe apetecer. De preferência com setenta por cento de peito para não dar briga.
* Este texto foi publicado na revista Expressão do ano passado, delatando, portanto, um kibe de mim mesma. Textos de Natal são sempre a mesma coisa. Não me julgue. Grata.
