quarta-feira, novembro 30, 2011

Fauna natalina: o peru e outras espécies

 

Setenta por cento peito. É o que oferecem por aí algumas marcas de peru resfriado, na disputa ávida pela clientela natalina. Amigos, a questão é: por que a porcentagem de peito é, de fato, algo relevante nas questões publicitárias e fator determinante na decisão de uma compra? Digo, imagine se existisse um cara com essa mesma porcentagem de peitoral ou uma mulher com 70% peito (Sheyla Hershey, que chegou o mais perto disso, não terminou bem). É pouco provável que a pessoa seja um sucesso na balada.

Assim como o peru com setenta por cento de peito, muitas outras coisas nos são empurradas goela abaixo, desde a obrigação de assistir à Missa do Galo até a necessidade de abraçar e desejar votos de felicidades a quem você nunca viu na vida. E quer saber? Nós fazemos isso todos os anos e ainda achamos bom, mesmo que reclamemos e blasfememos a comemoração.

O peitoral do peru é, na verdade, uma importante ferramenta na estrutura familiar. Ele é o centro agregador de um sistema complexo por onde gravitam, uma vez ao ano, seres estranhos a si mesmos, que geralmente estão lá por motivos de força maior à sua vontade própria. Sem ele, este sistema seria dispersado, gerando caos, confusão e perda de contatos para futuros empréstimos financeiros.

Em uma reunião natalina de família, podemos catalogar significativas espécies que têm como único fator comum o desejo de meter a boca no peitoral da pobre ave que, assim como Cristo, morreu em favor da união da humanidade. (Vejam a consistência da simbologia)

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Enfim, vamos às espécies já catalogadas pelo INTERBIFA - Instituto Internacional de Biologia Familiar:

Kunhadus Extravazadis - Velho conhecido da família que acredita piamente que é da família. Costuma ser um dos primeiros a chegar na festa de família e o último a ir embora, caso não pernoite no sofá da sala por ser proibido dirigir bêbado. Tem como características piadas engraçadas como “é pavê ou pacumê?” ou “onde você comprou isso tinha pra homem”, acompanhadas geralmente de sua própria gargalhada.

João Victor Pentelhus – O primo mais novo que, desgraçadamente corre por debaixo da mesa sob os gritos da mãe que, sem levantar a bunda da poltrona, tenta contê-lo usando a força da mente. Ostenta um corte de cabelo tigela e gosta de brincadeiras agradáveis como gritar, espernear, peidar em público e pular em idosos presentes.

Cleydis Alchovitheiras – A tia avó. Aprecia falar sobre a novela e sobre o corno do vizinho dela que, imagine você, não sabe que todo dia o encanador aparece de tardezinha para apertar a rosca da mulher dele. O assunto também se alterna com efeitos colaterais do Bezetacil e do lançamento inovador da Novartis para tratamento de artrites.

Desconhecidus Medonhus – Lembra sua priminha loirinha que brincava de Barbie ontem na sua casa? Então, ela acabou de prestar o Enem e trouxe para a ceia de natal um novo brinquedo para apresentar à família. Magro, encardido e com cabelo ensebado enfiado dentro de um boné aba reta, ele não fala, não demonstra sentimentos e se identifica com o canto do sofá. Costuma ser arrastado pela mão pela sua prima loira, do contrário, não se mexe.

Mamis Fatídicus – A sua velha conhecida e que, provavelmente, foi responsável por preparar a iguaria peituda que repousa morta no centro da mesa. Ela fala, fala, fala, fala sobre Dilma, quem matou o Saulo, sua última excursão para Caldas Novas, reposicão hormonal, dificuldade de arrumar uma empregada decente e os benefícios da acupuntura para suas crises de hipertensão. Mas ai de você se falar um ai dela.

Karlãum Proble-maticus – O tio que sempre leva salada – porque é mais barato – e come mais que todo mundo. Também costuma exagerar no álcool e a largar sua mãe idosa para traz para que os outros se encarreguem da velha. É o tio que brinca com as crianças e que aparenta ter a mesma idade mental dos sobrinhos. Tem um bom coração, mas vive endividado e é motivo de comentários constantes na roda familiar porque nunca arruma nem emprego, nem casa, nem uma namorada decente.

Rycah de Capitalyz – Essa aí é a sua prima da sua idade que cresceu com você, brincou com você, mas virou alguém na vida. Mora no Alto de Pinheiros em São Paulo, é descolada, viaja todo bimestre para o exterior para reuniões com os diretores da multinacional onde é gerente de marketing. O cabelo tem luzes californianas e ela sempre traz lembrancinhas para os mais chegados, o que geralmente é um saco de roupas da Osklen que não usa mais. Fuma loucamente, aprecia cervejas e já tentou se matar por causa de um artista plástico espanhol que não lhe dá a mínima.

Conhecidus Dystantiz – Aquele que alguém diz que conhece de algum lugar. Apareceu na ceia de Natal porque é irmão do cunhado do vizinho da sogra de algum primo seu que teve dó por ele não ter família nem amigos na cidade. Geralmente ele leva uma sobremesa que é sorvete Kibon de flocos. É até gente boa, mas tem a coragem de aparecer na festa com cinto e sapato caramelo combinando.

É claro que as espécies descritas aqui sempre variam de acordo com o tamanho e complexidade psiquiátrica de cada família. O negócio é que o Natal ainda marca a nossa vida, seja lá por qual motivo for, pela bebedeira, pelo cristianismo, pelo feriado, por achar que vai ser o último natal (que nunca chega) da sua bisavó de 104 anos.

Se quem não gosta do natal tem total direito de ser repetitivo e rogar pragas aos quatro cantos do mundo contra essa festa capitalista, religiosamente estúpida e sem sentido, quem gosta dele também pode livremente se dar o direito de enfeitar a árvore, passar horas tentando achar uma vaga no estacionamento do shopping e comprar o peru que mais lhe apetecer. De preferência com setenta por cento de peito para não dar briga.

 

* Este texto foi publicado na revista Expressão do ano passado, delatando, portanto, um kibe de mim mesma. Textos de Natal são sempre a mesma coisa. Não me julgue. Grata.

quinta-feira, novembro 24, 2011

E Jesus disse: me segue que eu te sigo de volta

 

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Religião. O tema encardido que circunda debates entre clientes do Shopping Iguatemi, contempladas do consórcio da Natura, bêbados caídos, jovenzinhos que curtem um luau na praia. “Olha eu respeito todas as religiões, mas acho um absurdo  o blablabla”. “Eu não tenho preconceitos, mas aqueles blablablabla”. Nós e nossas opiniões sem um pingo de coesão. Queremos expressar, mas não queremos nos comprometer.

Oras. Se deus fosse tão onipresente como as conversinhas de comadre a respeito dele, aí sim os problemas do mundo estariam resolvidos. Para cada rato de batina existe um ateu insuportavelmente intragável. Para cada evangélico fanático, existe um agnóstico com síndrome de superioridade e assim por diante.

Se o seu deus o escolheu, muito bem. Sinto informar que não poderei acompanhá-lo ao reino dos céus porque não ganhei a pulserinha vip. Eu não estou na lista da salvação porque eu não o segui de volta.

O ‘me segue que eu te sigo de volta’, muito antes de ter virado praga nas redes sociais, há muitos séculos serve de base estratégica de negócios. E quando digo negócios podemos considerar religião, relacionamentos, amizades, e business. A coisa da mão que lava a outra nada mais é do que a aplicação do follow back na vida real. Te dou isso se ganhar aquilo em troca.

Espiritualmente falando, todo mundo acha que tem razão. E deve ter mesmo, dentro das suas circunstâncias e experiências pessoais. Isso não é nada errado e ajuda muito a estabelecer um sentido pra sua vida. O que fode é desejar que as suas razões pessoais sejam universais. Aprendi na escolinha que o meu espaço termina onde começa o espaço do outro, no entanto, se esse outro não for tocado pela luz que me tocou eu sou obrigado a tirá-lo das trevas trazendo-o para a minha realidade. É um favor. Eu sou bom e não um intrometido.

Se o outro não aceitar, ok. Mas também não terá as glórias que eu terei. Não terá espaço, não receberá as coisas boas, nem os privilégios da turma que aceitou o follow back. É um pobre coitado.

Se deus é, ele é pra todo mundo. Se não é, não é pra todo mundo também. E me vi aqui, falando dessas coisas sem querer ter falado. É mal desses descrentes chatos que também têm suas verdades tão imbatíveis quanto qualquer outra crença.

Que deus tenha piedade de nós. Mas sem follow back.  

quarta-feira, novembro 23, 2011

Não tenha calma

 

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Frases de parachoques de caminhão disfarçadas de auto-ajuda pululam às nossas vistas desde que o mundo é mundo. É possível que os caras, fazendo sua pintura rupestre na paz da antiguidade, tenham pintado coisas fofas sobre se manter sereno e confiante.

Algumas gerações depois, adesivos de “No Stress” decoravam traseiras de monzas a passear por aí enquanto catequizavam a raiva alheia. O “No Stress” foi a encarnação passada dos adesivos da “Família Feliz”, este marco social que hoje esfrega na cara da sociedade a maneira como você configurou sua vida gregária e o quanto ela é demonstrável.

Modernosos da internet pregam a parte que lhes cabem: um “Keep Calm and Carry On” arranjado em um design vintage, diagramado para agradar pessoas de bom gosto. Essa gente diferenciada.

Senhores, vocês estão falando sério?

A vida inteira me mandaram ter calma. Qualquer um se sente no direito de enfiar o punho na minha goela e empurrar a minha raiva até que ela se transforme em lágrimas. Oras, se eles têm esse direito, uma hora ou outra acontece a reação da ação: o reflexo de vomitar.

Vomitar todos os antônimos da calma no focinho de quem tem a pachorra de me pedir pra respirar fundo quando eu levo um reator nuclear dentro do estômago. De quem eu decepcionei amargamente por ter me recusado a fazer parte da sua turminha do bairro (oh como eu fui capaz?). De quem me corta no trânsito, de quem passa a perna nos outros pra se auto-afirmar mais esperto. Dos guardadores de carro e dos amiguinhos de ocasião. Dos professores que não sabem do que estão falando, dos fanáticos, dos abutres, dos que se orgulham do tanto que bebem por não ter mais nada do que se orgulhar na vida.

É fato que nesses casos – quando se vomita - ninguém fica feliz. Mas há um relaxamento muscular tão intenso em mandar todos à puta que pariu que, dizem especialistas, assim previnimos moléstias das mais diversas: desde o câncer até a ilusão de sermos boas pessoas.

terça-feira, novembro 22, 2011

Estas coisas sem nome

Como é que chama aquela coisa mesmo? Não é exatamente saudade, porque não desejei que aqueles tempos voltassem. Não é saudosismo porque muitas das pessoas que estavam lá ainda estão aqui comigo. Não é alegria, já que não tive muita vontade de rir. Nem tristeza, porque não encurvei a boca pra baixo nem um minuto.

Hoje, por causa do trabalho, voltei à escola em que estudei a vida toda. E estavam todos la: o cheiro de salgado que vinha na cantina, os banquinhos de pedra desconfortáveis e uma cena que, a meu ver, foi congelada no tempo e no espaço: a coordenadora pisando numa coxinha e descendo escada abaixo com a bunda gorda varrendo os degraus.

Em vez de ajudar a gente riu. E eu fiz xixi na calça de tanto rir. A desgraça era dela, mas eu ri tão gostoso que lembro que meu corpo tinha ficado mole, assim, quando a cara não precisa de nenhum esforço pra manter um sorriso.

Era legal enxergar as coisas com  11 anos e imaginar que rir da tia escorregando na coxinha não era crime, nem agressão moral, nem falta de educação. Era apenas muito engraçado.

Hoje acho que eu não poderia rir abertamente de alguém escorregando, já que o que deve ser feito é respeitar o próximo como a si mesmo e não fazer com ele o que eu não quero que seja feito comigo. Do contrário é bullying. Se eu fizer isso serei condenada pelo cristianismo, pelo budismo, pelo Santo Daime, pelo  impressionismo, pela cartilha dos bons modos da Glória Kalil, pelo Estatuto dos Direitos Humanos, pelas crônicas do Rubem Alves.

Conseguiram nomear essa coisa de rir da cara de alguém sem ter graça para a segunda parte envolvida. Bullying é uma palavra bonita sim. Mas não conseguiram inventar uma palavra pra esse sentimento que eu tive hoje.

De fato as coisas sem nome são bem mais significativas na vida da gente.


(este é Inácio)

segunda-feira, novembro 21, 2011

Oração para uma vida menos decepcionante em 2012

1. Que eu tenha forças para não retuitar aquela piada que parece engraçada mas que foi kibada de alguém durante um churrasco

2. Que eu saiba distinguir o que é cultura de entretenimento antes de erguer o pulso a favor da democratização da arte

3. Que eu resista à tentação de compartilhar correntes no meu mural – desde crianças da Malásia com aids até falsos desaparecidos que foram dar uma voltinha pra refletir sem avisar o papai

4. Que meus conehcidos se iluminem e parem de me marcar em 196 eventos por semana

5. Que as empresas sejam ungidas com a luz da diferenciação entre um perfil e uma página no Facebook

6. Que eu saiba diferenciar quando minha vida está chata de quando eu própria estiver chata

7. Que eu me importe menos com quem é muito melhor do que eu

8. Que eu me importe menos com quem é muito pior do que eu

9. Que eu me importe menos com qualquer pessoa que não seja eu

10. Que o espírito obssessor das frases feitas de Clarice Lispector deixe a internet seguir seu caminho

11. Que as pessoas não sofram de remorso depois de recusarem uma amizade virtual de alguém de quem não se gosta.

12. Que eu me lembre que a solidão procurada tem graça, mas a instituída não

13. Que meus finais de semana sejam mais fora de casa

14. Que minha ansiedade não me transforme em psicótica

15. Que as pessoas parem de se considerar estrelas de Las Vegas porque aparecem em um canal local de televisão

16. Que eu não atinja um nivel elevado de loucura graças às informaçoes em demasia

17. Que não nos sintamos obrigados a fazer coisas que não queremos

18. Que parem de chamar de “casa” apartamentos de 22 m²

19. Que parem de chamar de imprensa colunistas sociais que cobram R$500 para cobrir até inauguração de ponto de ônibus 

20. Que parem enviar emails sobre os perigos do cigarro, da bebida, do ovo, do chocolate, do sexo anal, do telefone celular, dos cartéis de postos de gasolina, do homem com micropinto que precisa fazer uma cirurgia, dos novos vídeos do Kibe Loko

21. Que me desculpem os que foram alvo de alguma grosseria em algum momento

22. Que se fodam os que a mereceram

23. Que paremos de levar a vida tão a sério a ponto de doar dinheiro para o Criança Esperança

24. Que o Flight of The Conchords volte com a terceira temporada

25. Que tenhamos todos um bom motivo pra acordar de manhã e quem não tiver que invente com seu poder dissociativo esquizofrênico

26. Que as mulheres se tornem menos insuportáveis

27. Que os homens se tornem menos babacas

28. Que as bichas sofram menos agressões

29. Que as crianças sejam menos mortais

30. Que o preço da gasolina abaixe e que eu tenha consciência eterna da porcaria que é um lanche do Mc Donalds

31. Que eu nunca comece um perfil em rede social com “Sou uma pessoa que…” ou com uma citação do Fabrício Carpinejar.

32. Que eu possa ajudar mais pessoas a conseguirem um trabalho melhor

33. Que eu possa suportar melhor a minha própria felicidade.

34. Que possamos todos formar opiniões concretas sobre alguma coisa e citá-las essencialmente quando for solicitado

35. Que as pessoas pensem mais sobre seus próprios dias e menos nos dias dos outros

36. Que touros matem mais peões

37. Que parem de chorar por verbas da prefeitura e botem a mão na massa

38. Que aprendam a fazer dinheiro com suas próprias ideias

39. Que eu nunca faça mal a ninguém

40. Que leiam mais os manuais de instrução.


Amém.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Beijos artísticos

Já vimos por aqui o cara que pinta com o pinto e o outro que pinta com a bunda. Agora, veja só que coisa mais fofa a artista plástica americana Natalie Irish. Ela pinta com beijos. E o resultado é impressionante.
Taí uma boa oportunidade pra M.A.C investir em talentos.

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Natalie Irish2Natalie Irish3Natalie Irish4

segunda-feira, novembro 14, 2011

Galinhas, seres de luz

Não sei por qual motivo tenho uma leve inclinação a ter amor em galinhas. Acho o máximo o jeito que elas andam e ciscam. E piscam vertiginosamente. Não tem nada de mais, mas realmente acho as galinhas bichos muito bacanas e até poderia passar horas só olhando pra elas.

Já tive dois pintinhos que evoluíram para galo, que evoluíram para almoço. Mas não gosto de falar sobre isso.

Por uma outra coincidência, alguns amigos também me chamam de Frango. Frangão. Franguinha. Também já ganhei um concurso de imitadores de galinha na faculdade. Tenho algumas miniaturas de galinhas que considero uma coleção de imensurável valor.

Pra você ver, tá tudo conectado nesse universo de meu deus.

Para celebrar a paixão por galinhas, olha só que coisa mais linda da fotógrafa Tamara Staples: ela publicou um livro chamado The Fairest Fowl: Portraits of Championship Chickens, no qual estão fotografias de galinhas participantes e vencedoras de concursos.

A fotógrafa ainda conta que em uma recente competição americana de galinhas, cerca de 12 mil aves foram exibidas, todas julgadas pela beleza e ~hum~ personalidade.

É tipo um registro do Miss Galinha Universo. Um sucesso.

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Vi aqui.

terça-feira, novembro 08, 2011

Compartilhar: um verbo meio babaca

Por incrível que pareça tenho saído de casa para participar de alguns eventos e bate-papos sobre comunicação, blogs, escrita e a profissão de jornalista independente. Isso tem sido bacana sim porque tenho tido a oportunidade de dividir experiências minhas com outras pessoas interessadas. E essas experiências são do tipo que envolveram estudos de madrugada, horas de bateção de cabeça na parede, noites mal dormidas, anos teimando em exercer uma profissão bastante encardida. Simplesmente porque eu não sei fazer outra coisa na vida.

Há anos sou intimada metodicamente pelos meus poucos e bons amigos para comemorar o aniversário deles. Juntos, todo santo ano. E eu faço a mesma coisa, não interessa se a comemoração for num restaurante chique, num bar com cadeiras na calçada ou em casa, com direito a pai, mãe, avós, cachorro e papagaio.

Alguns meses atrás fui convidada por um moço a ser sua namorada. Para dividir a vida e a conta do bar, para dormirmos juntos e não precisarmos de despedidas sem graça pela manhã. Para termos momentos comuns que provavelmente vão construir aqueles quem seremos no futuro. Como ele é um desses que não aparecem duas vezes na sua vida, eu aceitei os termos de uso. 

Isso, pra mim, era compartilhar. Significava dividir coisas suas com quem realmente importa. Mas, de repente compartilhar virou o verbo do momento passou a significar “mostrar aos outros aquilo que você quer que os outros achem que você sabe”.

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Compartilhamos frases prontas criadas não se sabe por quem, textos que não foram lidos além do segundo parágrafo, causas pelas quais nunca levantaríamos a bunda da cadeira, fotos cujos direitos autorais dos fotógrafos nunca foram pagos.

Compartilhamos aquilo que diz ao outro quem nós queríamos ser, o que gostaríamos de parecer. Não tem graça ouvir o disco novo da Bjork sem que o MSN mostre o que estamos ouvindo. Porque assim a Bjork nos imprime cultura, personalidade e um toque de excentricidade, deixando de ser apenas uma esquimó irritante sem pé nem cabeça.

Blogamos uma crítica afetadíssima sobre o livro póstumo do Saramago e não importa que não tenhamos entendido o final. O que vale é que mostramos que somos muito apegados à leitura de qualidade.

Visitamos sites de designers incríveis e compartilhamos fotos de suas criações mirabolantes, mesmo nunca tendo grana para consumir sequer um peso de papel do artista. Adoramos falar da criatividade dos outros, mesmo que a nossa nunca seja colocada para trabalhar em prol de nossas próprias criações.

Falamos com propriedade do último lançamento da M.A.C, da coleção da Maria Bonita Extra, da originalidade da Osklen e das estampas arrasadoras da Farm, enquanto nosso orçamento só dá pra comprar uma calça jeans com costura em verde-limão da C&A.

Abraçamos opiniões alheias sem um pingo de constrangimento e rotulamos personagens da história contemporânea como maconheiros, reacionários, anarquistas, direitistas, viados, cornos, arrogantes, fracos, deselegantes. Adotamos pontos de vista medíocres alheios e dividimos com o resto do mundo nossa própria mediocridade ao quadrado. 

Compartilhamos tudo o que queríamos ser, sem compreender exatamente o que aquilo ali significa. Agimos como zumbis e esquecemos que o ato de compartilhar exige uma coisinha simples que foi se perdendo pelos likes da vida: a profundidade. Aquela profundidade que nunca vai existir enquanto quisermos parecer qualquer coisa, menos com nós mesmos.

porto alegre limpa


Estes caras foram abordados como vândalos mas, apesar de parecer que estavam pichando, eles estavam escrevendo com água e sabão na sujeira do Túnel da Conceição, em Porto Alegre. Outra situação parecedida aconteceu em São Paulo, em 2006.