quarta-feira, dezembro 28, 2011

O que aprendi com o palestrante do Itaú

Existe uma grande diferença entre falsa modéstia, humildade e noção de realidade. Eu sempre apostei que a terceira é a única que nunca mente e que é também a mais difícil de encontrar por aí.

Suponho que o mundo esteja surtando e que há uma pandemia de auto-estima em que as pessoas se sentem na fissura o tempo todo. São fissuradas em amor próprio e confundem isso com um sistema solar girando em torno do seu próprio umbigo.

É no mínimo curioso perceber esse fenômeno: grande parte da galera adotou como objetivo de vida ganhar louros de reconhecimento do mundo todo. Até aí tudo bem, pois quem não gosta e precisa ser conhecido? O problema é que pra esses indivíduos o mundo se resume à família e colegas da internet. Uma falsa noção de realidade que vem contagiando cada vez mais desavisados.

Vejo gente se descabelando para conseguir a atenção da mesma plateia de sempre. O mesmo público cativo de meia-dúzia de pagantes que sempre aplaudem o seu show, independente da qualdiade dele. E por isso entendem o “todo-mundo”. Todo-mundo me curte, logo, sou uma pessoa pública. Famosa. Querida. E popular. Muito popular. Vou providenciar a minha noite de autógrafos mas, ops, não produzi nada para ser autografado. Ah, quem se importa?

Este tipo de esquizofrenia só é possível notar quando não se faz parte do todo-mundo de alguém.

Essa coisa de achar que aquele palestrante descolado da propaganda do Itaú tem toda a razão. Considere a hipótese de que você não vai dar uma guinada genial e que você não é o diferentão que em vez de ficar esperando vai lá e faz. Na maioria das vezes a gente foge da nossa própria realidade porque desde que nascemos exigem que sejamos super-heróis fadados ao mais puro creme do sucesso.

E a frustração maior chega quando nos deparamos com a tal da noção de realidade: nós nem somos tão bons assim na maior parte do tempo. E isso não chega a ser um problema. Portanto, não doi andar na realidade desde o começo. E aí você escapa da vulnerabilidade da falsa modéstia e da humildade.

Pra você e pros publicitários do Itaú, um 2012 bem mais realista. 

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terça-feira, dezembro 20, 2011

Intelectus

- Véi, e esse negócio de sertanejo universitário, se fudê hein?

- Só trashera, não sei como tem gente que aguenta isso.

- O pior é que esses caras aí tão enchendo o bolso com a grana dos trouxas. Eles acham que isso é música, cara!

- Uma coisa horrível mesmo! O Brasil é um país tão cheio de cultura, musicalidade expressiva, gente boa por todo canto… não dá pra entender.

- É o mercado, cara, é o mercado.

- Mas será que a galera não tem interesse em conhecer outras coisas além de ferver o cérebro com esse sertanojo? Isso aconteceria se a indústria fonográfica  fosse interessada em promover a cultura e não só em ganhar dinheiro.

- Sim, o ideal. Mas sabemos né, não é assim que rola. O dinheiro come solto enquanto a massa se aliena.

- Essa massa é foda. E cê sabe que eu me sinto um puta peixe fora d’água nesse país né?

- Complicado mesmo.

- Sabe, quando eu morei nos Estados Unidos, lembra, durante as férias de janeiro do ano passado? Então, lá não tinha essas coisas. Tinha barzinhos com músicos de verdade, rolava R&B profissa na rádio.

- Mas R&B tipo, virou rap, né não?

- Ah, véi, é totalmente diferente. Outra pegada.

- Pra mim é um saco igual.

- Bom, cada um tem sua opinião né.

- É.

- Incluisive, você viu? Foo Fighter fechou no Lolapalooza!

- Pois é, vi no twitter. Você vai?

- Pô, tem que ir né! Não é todo dia que tem show do Foo Fighters nesse país.

- Já comprou ingresso?

- Opa! Primeirão! Varei a madrugada na internet, véi, puta fita! Mas rolou com aquela carteirinha de estudante né. (risos)

- ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha

- 500 conto. Esses cara tão loco.

- Puta facada.

- Sem noção.

WGorKA9Z

terça-feira, dezembro 13, 2011

Miss Simpatia

Até que eu me considero uma pessoa simpática. Já fui mais, mas depois que se fecha a conta dos vinte e todos anos cai a ficha de que há uma tênue linha separando simpatia excessivamente gratuita da falta de um bom cacete.

Aí que dia desses eu estava no meio de uma rodinha. Metade era da categoria “oi, tudo bem”, o resto da categoria “quem?”.

Não sei me comportar como uma melhor-amiga-do-tricô com quem conheço pouco ou nada e ta aí uma característica desenvolvida através da observação das entrelinhas de todos os que passaram pelas nossas vistas. Nesse caso, não se julga o livro pela capa, mas pelo combo orelha + prefácio. Dependendo, o resto não tem muita importância. E é só uma questão de praticidade mesmo.

Uma moça da roda conversava comigo. Ela era muito bonita e tinha cara de que ia chegar em casa e adicionar todos ali no Facebook. “Você tem um sorriso tão lindo, mas deveria sorrir mais, viu?”.

A música do ambiente foi pausada. Os holofotes caíram sobre mim e ela. Celso Portioli gritou no meu ouvido: tempo! Tic-tac, reponda! Tic-tac, responda!

O que isso quis dizer? Por que será que eu deveria sorrir mais do que meus músculos da cara me permitem? Por que, pombas, eu teria que pedir perdão por não estar agradavelmente bêbada naquela hora? Onde estaria o Muro das Lamentações pra mim nessas horas?

Cabecinha lentamente tombada pra direita, uma piscadinha mais demorada e o maior sorriso que já dei na vida. “O-bri-ga-da-a-a-a-a-a!”.

Passei o resto da noite com dor no maxilar. E sóbria.

Mais uma vez meu nível de simpatia não atingiu a nota de corte. E ninguém me adicionou no Facebook. 

bruninho simpatia

Aaah, muleque!!!

segunda-feira, dezembro 12, 2011

O amor é o calor que aquece o texto nosso de cada dia



Muito mais do que um ganha-pão, escrever é uma terapia. E isso eu percebi há muito tempo. Disse uma vez, numa palestra pra alunos de jornalismo, que viver de escrever é um privilégio e quem consegue chegar nisso é um grande sortudo. Eu sou. Eu acho.

O blog completou 5 anos esse mês. E eu tenho certeza de que muitos de vocês vão concordar comigo numa coisa: não há nada pior do que ler coisas que você escreveu há mais de dois anos. É terrivelmente vergonhoso. Dá ânsia de vômito. Vontade de fazer cocô em cima da própria cabeça. Mas é assim que as coisas andam pra frente. Um dia após o outro. Ver que o que você faz hoje é menos horrível do que o que você fez ontem dá uma sensação boa.

Tem aquelas épocas né, pelas quais passa todo mundo que gosta de escrever: a fase do escrever sobre o amor. Depois sobre a dureza que é amar, seguido dos textos de negação do amor, e logo os textos detalhistas sobre relacionamentos. “O cheiro dele às 18h, a mochila que ele sempre esquecia sobre a mesa da sala”. Quem nunca?

Todo mundo, um dia, quis (ou ainda quer) ser Martha Medeiros. Tati Bernardi, Clarice Lispector, Fabrício Carpinejar. Eles são ótimos e famosos não por acaso, mas o que faz a gente querer escrever incansavelmente sobre a sombra deles sem ter coragem de admitir que não temos muita criatividade pra escrever sobre outras coisas? Porque é a coisa mais fácil de se fazer.

Amor é o tipo de coisa pela qual zilhões de pessoas agonizam todos os dias enquanto quem escreve sobre ele tem a plena certeza de que é o único a sentir esse turbilhão de cafonices.

O amor é chulo. É bobo. É a pauta mais fácil de todas, o assunto mais lido, mais escrito, mais musicado, mais publicado, mais chorado e mais rentável do mundo. E não dá pra acreditar que não há imaginação para se escrever sobre coisas mais divertidas.

Foi por causa da vontade de eescrever sobre o amor que surgiu Drummond, Jorge Vercillo, Noel Rosa, Neruda, Roupa Nova, Kid Abelha, Fernando Pessoa, Damien Rice e Michel Teló.

E é sempre bom lembrarmos desses pequenos detalhes.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Essas coisas de jornalismo

Diferentemente da Daniela Albuquerque, que decidiu ser jornalista por causa de um texto explicativo atrás de um Toddynho, eu escolhi a profissão por afinidade. Desde pequena eu sou coagida pela minha mãe a escrever cartões de aniversário, votos de casamento, pedidos de desculpas formais, pêsames e, já mais na fase adultinha, circulares para os colegas de departamento dela. Não teve como escapar.

Talvez eu poderia ter feito carreira nessa coisa aí. Ser uma Dora escrevendo cartas na Central do Brasil. No entanto, o jornalismo me deu uma credencial especialíssima para ser eleita eternamente como oradora das formaturas, dos aniversários. Fazer o que?

Engraçado quando observo outros colegas de profissão. Há os que comeram o pão que o diabo amassou em anos de trabalho e, com base na experiência, atingiram bons cargos e títulos profissionais complementares. Há os que são tão geniais que a experiência e a idade passam a ser coadjuvantes. E tem também os que incluiíram ~assim, despretensiosamente~ títulos ao seu próprio nome, sem antes saber o que aquilo realmente quer dizer.

Vejo auto-denominações randômicas das mais variadas como acompanhamento para a profissão de jornalista: comentarista, crítico, jornalista-musical (meu favorito), articulista, especialista, poeta, escritor. Tantos egos juntos que ficaria bonito também inserir um ‘doutor’ na frente.

O jornalismo ficou pretensioso e gordurento. Criticam a massa e o comportamento corruptivo, mas quando têm a oportunidade de exibir a plumagem, ah, dá uma licencinha aqui, amigão, eu sou da imprensa! O mundo é dos espertos.

Acham lindo quando são citados como celebridades. Querem ser a notícia em vez de correr atrás dela. Preferem respirar a atmosfera criada pelos elogios dos amigos a ter que encarar a realidade do mundo la fora e trabalhar como qualquer outro mortal.

Talvez eu tenha compreendido mal a minha profissão. Pode ser que eu esteja reagindo mal à tendência do segmento. Devo estar obsoleta. Mas acho que é muito mais provável que eu esteja sentindo saudades de alguns amigos da área. Aqueles engolidos pelas redações cuja maior ambição na vida é pedir a cerveja mais gelada do bar.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Fotógrafos estranhos: Kim Keever

Fotografia sempre foi um hobby por aqui e por isso não tenho grandes pretensões em fazer fotos pra tentar uma vaga na National Geographic. Mas uma coisa curiosa que vejo é o tanto de invenção de moda que os fotógrafos lançam por aí. E não sei se isso é totalmente bom. Nem totalmente ruim.

Esse fotógrafo aqui é o Kim Keever, de Nova Iorque, que tá mais pra artista contemporâneo, seja lá qual for a definição desse termo tão usado até pela tia do artesanato com garrafa pet.

Ele faz grandes fotos (como obras de arte) com paisagens fictícias montadas dentro de um aquário cheio de água, com umas luzes malucas e coloridas que dão um ar psicodélico e onírico à imagem.

Não dá pra imaginar o trampo que isso deve dar, mas o resultado é, no mínimo, uma viagem.

kim keever´s0kim keever´s2kim keever´s3kim keever´s4kim keever´s5kim keever´s6kim keever´s7kim keever´s8 

Estas obras estão expostas aqui.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Fw:Re:Re:Re:Fw:Fw: lindo!

- ô muleque, como ce tá? Espichou hein? E as namoradas?

- Oi tio, tudo bem, e você?

- Se melhorar estraga! Ra ra ra.

- (…)

- Você que mexe com essas coisas de computador, vai lá em casa um dia pra gente trocar umas ideias. O Vitor Hugo encheu tanto o saco que eu tive que colocar banda larga la. Ficou falando que ele era zoado na escola porque não entrava na internet, não tinha meceno, emecene, uma coisa assim. Daí instalei lá.

- Olha só, tio, que bom!

- É sim, ai ai. Mas você ainda ta trabalhando com essas coisas de computador, né?

- To sim. Sou designer.

- Ahhhhhhhhhh!!! Ô Luciane, vem cá falar com o seu primo! Ele fez designer, num é isso que você quer fazer?

- Tio, eu preciso ir.

- Tranquilo, mas ó, vou te mandar uns emails que você tem que ler. Muita coisa que a gente não sabe nesse Brasil, viu? Esquemas de corrupção, bandido que coloca agulha com AIDS na poltrona do cinema, um gato que toca até piano! Você precisa de ver.

- Ok, tio.

- Falou garoto. Abraço na mãe e no pai. Te ligo pra gente marcar aquela visitinha! Vamo marcar mesmo, hein?

- Falou. 

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