As décadas foram criadas para serem sobrepostas umas às outras. Porque não basta mostrar algo novo, é preciso renunciar às ideias antigas e aniquilá-las com a força provinda dos vanguardistas, que perdem a majestade quando o próximo babaca aparece com uma nova inovação inovadora.
Acabei de ler um ótimo artigo sobre as diferenças entre as gerações dos babyboomers, os X e os Y, etc. Foi através das décadas que eles vêm apagando o passado e construindo o futuro. Mais festa-do-clichê que isso, impossível.
Babyboomers viveram aí na década de 70 com ideais de paz e espírito livre. Os X, na década de 80, começaram a fazer guerra em vez de amor e pisotearam os hippies de calcanhar rachado com seus passos rápidos e corporativos. Tempo é dinheiro. Os anos 90 chegaram com uma revolução que mudou as configurações sociais, criou novos empregos e novos empregados, uma corrida tecnológica insana cujo prêmio era uma noite inteirinha gasta no bate-papo da UOL.
Nos anos 2000 me aparece isso: a galera desencanation que quer ser chefe sem saber amarrar o sapato sozinho e sem a mínima capacidade de concentração.
Mas espere:
Estamos em 2012 e sabe o que está aparecendo? Gente querendo renegar essa loucura toda, querendo deitar na grama e comer orgânicos, alheia ao bilhão que o Facebook pagou pelo Instagram.
Como a minha área de trabalho é a comunicação e eu ainda não recebi uma cerimônia de beatificação do Vaticano, tenho que ganhar dinheiro. E trabalhar honestamente significa acompanhar essa coisa toda, às vezes achando interessante, às vezes achando que, puta que pariu, alguém precisa me tirar daqui.
Levo sustos quando meus pais contam eufóricos que um cara da Namíbia vai depositar 1 milhão na conta deles ou que foram o visitante número 1.000.000 e ganharam um iPhone em um site qualquer. Mesmo não sabendo o que é um iPhone, eles ficaram contentes com a notícia. “Deve ser algo caro”.
Por outro lado, tenho medo de ter filhos. E que eles riam de mim quando eu não entender a babaquice que será colocada no mercado daqui 20 anos.
Tenho receio de não conseguir me concentrar na fisioterapia quando eu tiver 50 anos, porque isso é muito repetitivo. Talvez ainda aos 40 eu também queira passar o dia deitada na grama e comemendo orgânicos.
Torço muito pra que chegue logo essa coisa de fim do mundo e coloque um ponto final nesse eterno andar em círculos que a gente teima tanto em chamar de avanço.
Eu fico tonta.
Tá gata, tá Sônia Abrão, tá Instagram.
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