quinta-feira, janeiro 19, 2012

As pequenas coisas doem mais

Depois de anos, a gota d’água. E a separação chegou por causa daquela maldita mania dele de mastigar numa altura ensurdecedora. Ou quem sabe pelo irritante costume dela de chamar de baranga qualquer uma das amigas dele (com foco nas loiras altas). Talvez a falta de espaço para o novo ou um copo sujo descansando na pia durante dias podem também ter dado o tiro de misericórdia na relação.

Cada um para o seu lado e com a teoria batida de que “não foi culpa de ninguém”.  Oras, se a  culpa foi das pequenas coisas, é a falta delas que vai chicotear suas costas nas primeiras 24 horas de solteirice. Depois de uns dias, elas apenas estapeiam a sua cara.

As coisas pequenas são as que mais machucam quando um relacionamento chega ao fim por esgotamento de possibilidades. Mesmo que você não suportasse aquelas botinas desgraçadamente feias que ele insistia em usar, são elas que você, sozinha, vai abraçar aos prantos com uma saudade desconhecida até então.

Aquele batom Snob dela, que você dizia ser maquiagem de palhaço, vai olhar pra você com sarcasmo, projetando numa tela imaginária todos os sorrisos da sua ex naquela época em que eram felizes. E aí você chora igual criança, enquanto seu irracional deseja ardentemente aquela boca lilás novamente entre seus lábios.

O caminho pra casa dele que você percorreu durante tanto tempo, a senha do cartão de crédito dela, o dedo torto no pé, a gargalhada quando você contava as piadas mais horríveis do universo.  A buzina, o cheiro, o livro, as migalhas que sobraram espetam cada célula sua sem dó nenhuma, tentando fazer você entender que [suspiro] acabou mesmo.

A falta da outra pessoa às vezes não é tão grande quanto o vazio deixado por essas coisinhas. Nas primeiras horas depois do adeus, é insuportável o desespero causado pela falta dos minúsculos pedaços da vida alheia. Mas a decisão foi tomada. Anos de relacionamento se definem agora em lembranças insignificantes para o resto do mundo.

E é engraçado como os amigos têm um discurso default pra nos consolar nessas horas: “Você vai esquecer”.  Os outros ficam doidos pra arrancar da gente essas coisas pequenas que machucam como se fossem imensas.  Como se aquelas botinas horrorosas não tivessem seu fundinho de beleza. Como se elas não tivessem ajudado a construir o que somos hoje. 



** esse texto foi originalmente publicado no blog do Casal Sem Vergonha no ano passado, para o concurso de colunistas, então desculpe quem já leu pelo vale a pena ver de novo. Recomendo fortemente o site desses queridos. 

terça-feira, janeiro 17, 2012

Olha o passarinho aqui, filho da puta

Fotógrafos jamais deveriam sofrer de carência.

O cara da máquina é o mais amado. Querido. Solicitado. Importunado. Paparicado. Invejado. Apesar da grana muitas vezes não compensar, são eles os campeões de amizade no Facebook e na vida. E lhes sobram mensagens colecionáveis do tipo:

1. Olá, fulano. Você poderia mandar as fotos de hoje no meu email?

2. Olá, fulano. Pedi ontem pra você mandar as fotos da festa no meu email mas acho que você esqueceu. Risos. Manda, por favor?

3. Não esquece de me mandar as fotos da festaaaaaaaaa bjs

Se o fotógrafo tem a boa vontade de acatar o pedido (que deve ter sido repetido em mantra por mais 450 pessoas na mesma ocasião), as mensagens seguintes podem variar entre uma coisa e outra, tipo:

4. Aaaiiiii mas eu tô muito feia nessaaaaa manda outra?

5. Mano, você só mandou uma, me lembro de você ter tirado umas 150 fotos nossas, manda ae pra noix abrassssssssssss

6. Nossa, você podia fazer um favorzinho? Dá uma corrigida na minha pele no Photoshop, affff como eu to baranga

7. Valeu queridão!!! Aproveitando a oportunidade, lembra daquela outra festa que teve, a Amazing Forever Sunset On the Water Megamix? Manda aí támbém!

Atendido o segundo pedido, pronto. Um protozoário inquilino instala-se na vida do pobre sujeito sem direito à medicação.

No caso de fotógrafos de casamento, a vida é mais ingrata. No bem bom da festa ninguém quer saber deles. Se ele tá desidratado com aquele terno três números maior, se o sapato tá apertado, se ele gosta de filé ao molho madeira. Passado um tempo, ele será o centro das atenções da noiva, da sua mãe e suas infinitas tias-avós doidas para verem a pequerrucha no momento-mais-especial-da-vida-dela.

8. Ai eu quero só as fotos em que estou com o rosto virado para a esquerda, é o meu melhor ângulo
9. Não quero fotos com a minha cunhada, por favor, evite.

10. Fotos minhas no fim da festa, toda cagada? Nem pensar.

11. Mas pelo preço que eu te paguei eu deveria ter ficado tipo a Alessandra Ambrósio nas fotos e olha o que você me apresenta! Tô mais pra Danuza Leão, né?

Foto-jornalistas então, que lástima. Dependendo da pauta, eles podem desempenhar papeis variados. Quando a pauta pode vender o dobro de jornais, ele é empurrado, ameaçado, trepanado. Se a pauta for típica encheção de linguiça, aí o filtro da amabilidade se materializa frente às suas lentes.

12. Querido, dá pra fazer a minha foto com a logo da minha empresa no fundo?

13. O vereador já disse que não vai atender você, ou tá afim de ver essa maquininha espatifada no chão?

14. O que? Você só trouxe isso de foto? Cadê a expressão de angústia do favelado? Cadê  a lágrima escorrendo do rosto deste morador?

15. Prezado, informamos que a partir desta data todos os fotógrafos serão resposnáveis pelo transporte da equipe de reportagem, haja vista a demissão de todos os motoristas da empresa objetivando a redução dos custos.

E, de repente, o peso do equipamento fica super insignificante.

foto.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Fotógrafos estranhos: Hal

Depois do cara que fotografa paisagens-viagem-de-LSD usando aquários, um japonês (há chances de não ser?) inventou de juntar casais e fotografá-los.

Tudo bem, já vimos 90 bilhões de fotógrafos fazendo fotos românticas de casais, mas duvido que algum deles se propôs a embalar os pombinhos a vácuo. Sim, no mais lindo estilo maminha maturada, os casais foram deixados, literalmente, no vácuo.

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GENTE?
Fonte
Site do Hal. (vai lá)

terça-feira, janeiro 03, 2012

Super Michel Teló contra o baixo astral

Já é bom deixar avisado logo no começo que não tenho nenhuma intenção em defender ninguém, quanto menos um ~gênero~ de música que não consegue se formar de jeito nenhum nem nas universidades mais vagabundas.

Alguém com o mínimo de bom senso seria incapaz de considerar como música isso que grande parte dos nossos campeões de vendas de discos fazem há décadas. E há tantos, tantos deles que poderíamos encher o Oceano Índico com nomes escritos em Times New Roman corpo 8 de duplas, bandas e avulsos que só falam bobagens em suas canções que estão na boca do povo.

Pronto, agora acho que fica mais confortável questionar uma nova raça de super heróis opinativos que surge a cada pipocada da indústria fonográfica brasileira. Os defensores da moral e bons costumes. Os caga-regras. Os que acreditam piamente que faz muita diferença em suas vidas ter Michel Teló ou John Coltrane tocando nas rádios populares.

É bom que saibamos dar sentido a algumas denominações como povo e popular antes de sair arrotando ódio por aí.

Não entrar para a comunidade dos que odeiam isso ou aquilo não significa que um indivíduo seja conivente com o objeto de ódio em questão. Pode ser que ele sequer faça parte da realidade do tal indivíduo. Não entrar para o time dos lambedores de saco do objeto em questão, também não significa que um indivíduo não possa aproveitar seu momento de alcoolismo cantando algumas frases da ~música~ do tal objeto. Essa dicotomia, esse 8 ou 80, esse assim ou assado tá é de cagar.

Surgem Michéis Telós desde que o mundo é mundo, desde que o Brasil foi descoberto, desde que Niemeyer era criança. Oras, lutar contra isso me parece um comportamento tão repetitivo quanto as tentativas da indústria do entretenimento de estabelecer ícones rentáveis ou quanto as investidas da Globo para criar, a cada ano, um novo Ayrton Senna.

Falar mal de fulano cansa. Ouvir argumentos acadêmicos e burocratas, cheios de embasamento filosófico-cultural contra essas porcarias todas esgota. A cena que vejo nesse contexto é: o Stephen Hawkin criticando em carta aberta a banda de pop rock do sobrinho-neto dele de 12 anos.

A gente tá ganhando rugas sem saber porquê. Estamos com o intestino preso cada vez mais. Sofremos de angústia por causa de fatores que sequer alteram o andar das nossas carruagens. Sério mesmo que a fortuna de um meteoro da paixão te incomoda tanto assim?

Música existe aos montes. Da boa e da ruim. E olha que interessante: você pode ouvir o que você estiver afim. Se alguém disser no seu ouvido que assim você o mata, dê uma risadinha marota. Seu salário continuará o mesmo e você ainda tem a opção de voltar pra casa e colocar Coltrane na vitrola pra esquecer a noite.

ai se eu te pego