terça-feira, junho 26, 2012
Amor 3.0
- Alô, mãe?
- Oi filha! Que saudade! Como estão as coisas, você ainda tá com aquela diarreia, ainda tá tomando aquele 46, já te falei que aquilo
- Mãe, preciso contar uma coisa.
- O que é? Não vai me dizer que a vizinha ainda está fazendo fofoc
- Não, mãe, é o Kléhber.
- Ah, o que tem o Kléhber? Aliás, você ficou de trazer o moço pra vir jantar conosco e até agora não
- Mãe, ele me pediu em casamento.
- …
- Você ouviu? O Kléhber me pediu um casamento!
- Minha filha, que coisa mais linda! Mas, mas, como foi, nossa, me conta, quando? Menina, tô arrepiada, JOSUÉ, DESLIGA O FORNO QUE
- Foi ontem, mãe. Ele me levou para jantar e no meio da comida ele disse que tinha algo pra me falar.
- Meu Deus seja louvado! A Tia Alzira agora vai parar de falar que você não vai contrair matrimônio nunca e, mas me conta, o que ele disse? O que você di
- Estávamos comendo, ele inventou de ir naquele restaurante chique que tem pratos de louça enormes com uma poça de comida no meio.
- Ahm
- E aí ele me tira uma caixinha preta do bolso e disse que era pra mim.
- Ai meu Deus! E o que você fez?
- Eu peguei, abri, e ele perguntou “você quer se casar comigo”?
- Aiiii minha filha! A Tia Alzira vai cair durinha quando souber di
- Mãe, eu estou me sentindo um lixo.
- Mas, filha, como assim? Como você é pedida em casamento e está se sentindo um lixo?
- Mãe, um pedido de casamento num restaurante… é óbvio que o Kléhber não queria demonstrar seus sentimentos, porque homens são sempre assim, fazem tudo na surdina. Eu não quis acreditar que ele não foi capaz de se esforçar um tiquinho para deixar esse momento especial.
- Filha, ele quer que você seja a esposa dele, não tô entendendo o porq
- Mãe, está muito claro pra mim que ele fez isso por obrigação. Imagina se um homem apaixonado de verdade, que se importa com os meus sentimentos, que quer fazer a mulher feliz de verdade, vai falar baixinho, num restaurante, “oi você quer se casar comigo?”. Mãe, é claro que o Kléhber só tem a me oferecer uma vida mesquinha, sem emoção, sem aventura, sem
- Flaviana, minha filha, raciocina. O que é que você estava esperando?
- Mãe (nariz escorrendo, olho inchado, suor na testa, decote molhado) eu sonhei a minha vida toda com um pedido de casamento decente, com no mínimo uma plateiazinha, sabe, com um amigo filmando, com pessoas emocionadas em volta, com música tocando, com amigos dele se levantando e cantando em coro, com a minha história de amor no YouTube tendo sessenta mil acesssos por dia. Mãe, como ele pode acabar assim com o meu sonho, me fala? O Kléhber não pensou um segundo nos meus sentimentos!
- Flaviana, às vezes ele é uma pessoa mais simples, que dá valor nas intimidades, essa coisa de vídeo não agrada todo mun JOSUÉ EU JA FALEI PRA DESLIGAR O CARALHO DESSE FORNO OU VOCÊ VAI ALMOÇAR LASANHA DE BERINJELA DO BAR DA MARIA INÊS
- Mãe, me escuta, pelo amor de deus. Eu tive a prova que o Kléhber não é o homem da minha vida! E (assoando o nariz) é claro que o que eu sinto por ele ainda é muito forte mas eu preciso ir atrás da minha felicidade! Essa coisa de amor é muito babaca é coisa da sua época, eu preciso ser racional e ver o que é que eu quero da minha vida.
- Minha filha, você tem que erguer as mão pro céu por ter alguém te pedindo em casamento com esse tanto de viado que tem no mun
- Mas…. não foi… isso que eu sonhei….. nesses 19 anos…… da minha vida… mãe…. como eu vou ser feliz com um homem que sequer……… (telefone encharcado) que sequer contrata uma banda pra tocar a minha música preferida, mãe! Ele não fez a mínima questão de demonstrar sentimento algum pras pessoas que estavam naquela bosta de restaurante!
- Flaviana, você não acha que tá na hora de ir embora de São Paulo, volta aqui pra Socorro do Sul, volta pra sua realidade, filha. Esse seu trabalho não tá te fazendo bem, seja lá o que você está fazendo agora.
- Mãe, esse é o trabalho que eu sempre quis, mãe.
- E o Kléhber, minha filha?
- Ele foi embora. Depois que eu levantei no restaurante e chamei ele de frouxo e de insignificante na frente das pessoas, ele nunca mais me ligou.
- Então volta, filha.
- Não, mãe. Eu não posso.
- Por que, Flaviana?
- Tem You Pix semana que vem e eu sou palestrante.
- Tem o quê?
- Mãe, tenho que desligar agora. Reza pra mim, por favor, pra eu conhecer um homem de verdade.
- Você sabe o que faz, minha filha. Deus te abençoe.
- Beijo…… mãe…… te amo.
domingo, junho 24, 2012
Alguma coisa acontece no meu coração
Bom, esse título foi só pra dá um ar de pé rachado, fã de MPB, de brasileiro que não desiste nunca e que acha que ostentar a curtição pelas letras do meu tempo é que eram boas é uma grande vantagem. Tudo porque não apareceu nada melhor pra dizer.
E sim, estou com dificuldades para escrever (talvez conversar, fazer amizades, ler, levantar de manhã, comer fibras e tomar água regularmente também), o que explica a ausência no último mês e a escassez de coisas razoáveis nos últimos tempos. Afinal de contas em quase 7 anos desse blog, era esperado que uma hora eu acordasse e percebesse o tamanho da minha babaquice.
Os últimos dias não foram fáceis (e agora aguentem o diário cotidiano): fui conhecer Cuba, a viagem com que sempre sonhei desde que fiz minha monografia entitulada “A Imprensa Alternativa durante o Golpe de 1968” e era uma estudante de jornalismo que gastava o tempo pensando na igualdade social. Descobrir que Marx realmente não faz sentido algum foi bem mais natural do que saber que o Michel Temer é satanista (me contaram isso esses dias e não pude esconder meu preconceito).
Eu poderia escrever noventa e cinco posts sobre as coisas que eu vi por lá, mas sabe, rola uma fadiga, um pensamento de que não precisa. Tenho visto que não preciso fazer mais um monte de coisas.
Enfim, dessa viagem surgiram alguns embriões de trabalho – que meudeusdocéu, como eu gosto de jornalismo de turismo <3 - e uma doença misteriosa que me faz tossir incessantemente, numa linha de produção de catarro incrível, que daria inveja à Kraft Foods.
As coisas mudam não é? Andam pra frente ou, na pior das hipóteses, para os lados. Mas sempre andam. O trabalho anda me consumindo bastante desde que decidi me libertar da CLT, o que escancarou meus níveis de ansiedade e me indicou doses de terapia. Ok, ok, caminhos escolhidos, não reclame, Francine. O dinheiro está bom e trabalhar sem chefe é uma dádiva.
De repente, essa coisa de dar opinião me pareceu muito boba. Meus próprios textos começaram a me irritar, de forma que eu me envergonhei de vários deles, não pelo conteúdo em si, mas por um dia eu ter acreditado que usar meu tempo escrevendo aquilo iria servir para alguma coisa. Não sei para que.
Passei a gostar mais do silêncio e das folhas em branco, a ter preguiça das minha próprias convicções. Me senti como o carinha lá, do Mito da Caverna ou como o Carlinhos Brown levando garrafadas no palco.
Algumas mudanças aconteceram e alguma coisa saiu do eixo. Pode ser a crise dos 30 anos, pode ser os vermes que eu peguei tomando a água de Cuba, pode ser que eu esteja morrendo, pode ser que eu tenha tido mais vontade de cozinhar do que ir em eventos de comunicação. Desisti de mudar a cor do cabelo bimestralmente.
Desisti de fazer e de tentar mudar outras coisas. E até que é boa a sensação de jogar a toalha. Quase um alívio.
